Marilene: a menina do calendário
Pobrezinho do meu Tó Manel! Mas é bem feita! É bem feita, é bem feita! Que o meus Santinhos não me ouçam! Quem o manda andar a armar-se em carapau de corrida?! Carapau, como quem diz... Ai, estas férias souberam-me mesmo bem! Oops! Quem é que falou em férias?! Ai, a minha cabeça! Ainda anda às voltas com tantos números! Os do inventário, claro! Porque eu estive sempre atenta, não fosse o Tó Manel enganar-se. Põe-se a cantarolar e lá se vão as contas! Ou pior ainda: põe-se a sonhar! A mim, ainda não me convenceu com aquele gesso! Cá para mim, é mais uma desculpa para se ir embora com a primeira sonsa que lhe aparecer à frente! Ah, pois! Eu ouço cada uma através destas paredes. Ainda no outro dia, a Graciosa – que, cá para nós, não faz jus ao nome que tem – estava a contar ao Aníbal do talho – realmente, pensando bem, a Graciosa anda sempre no talho, mas onde é que ela enfia tanta carne se lá em casa é só ela e a magricela da filha?! – que um moço, lá do escritório onde a filha trabalha, inventou que tinha a pobrezinha da mãe à beira da morte, lá para uma aldeia de Trás-os-Montes, onde ainda nem sequer havia rede de telemóvel! Olha, olha! Um sítio sem rede de telemóvel! Eu via logo por aí que o moço não estava a falar a sério! Sem água, sem luz, sem gás, ainda acreditava! Agora, sem rede de telemóvel! Está-se mesmo a ver que os colegas do escritório não são lá muito espertos! Agora, um braço engessado! Isso é que mostra a inteligência do Tó Manel. Depois, vai a casa da menina Marta - que eu sei muito bem que ele já andou a brincar com ela às enfermeiras - e ela tira-lhe aquilo e, durante o próximo mês, ninguém lhe põe a vista em cima! Ai, se ao menos o Senhor Manel voltasse!