Sr. Manel

O pior de tudo é o tempo que não passa.
Parece que cheguei aqui anteontem, mais velho menos velho. Não há pachorra para os gemidos. Mania de não usar câmara de ar, é no que dá. Tenho o sardão cheio de pus; sinal de vida, nem pó. Nem com o decote da enfermeira, tão perto, tão debaixo do chuveiro. Também, não admira; desde que o médico monhé me reconheceu, já sabia que a coisa ia ser feia, mas nunca pensei que pudesse ser ainda mais feia que o Corolla verde-alface que lhe vendi, como novo, depois de ter tirado dos estofos os últimos bocadinhos de cartilagem do antigo - e único - proprietário. Queria o quê? Carrinho de garagem por novecentos contos? Bem que se vingou, o filho da mãe. "O Sr. Manel é alérgico à penicilina, tenha paciência" e vai de proibir que me dêem antibióticos. Todos os dias, por volta das seis e meia, chega a enfermeira Fernanda com o martelo, aumenta o volume da rádio e, invariavelmente, "Vamos a pôr essa porcaria cá para fora, senhor Manel?" Não adianta resistir; a gaja é maior que eu - fez recruta em Tancos, onde é que este mundo vai parar - e com isto e aquilo nas mãos depressa me esgota a argumentação. "Já sabe o que acontece se não colabora! Escusa de fazer birra." Todos os dias um tormento, nem ao domingo tenho descanso. Ainda pedi à patroa que falasse com o Fernandes da farmácia, mas ela, nada. Repeti, e ela fez de conta que não ouviu. Sem parar de me fitar com aquele ar de búfalo tailandês, pegou na colher do iogurte natural "Come, Manel, come que vais ver que ficas bom num instante. Só comes porcarias e depois é no que dá". Bem me parecia que não tinha engolido a tanga da retrete da oficina. Mania das sextas à tarde. Fica-me de lição, ou por outra, não me fica coisíssima nenhuma. Neste estado bem pode a Madame trazer-me o prato mais recente da casa que há-de dar igual às paranóias mensais da patroa. Isto não é vida para ninguém. Já ando a fitar as mamas da enfermeira com menos recato que o costume. E não adianta de nada. Qualquer dia, de manhã, "O Sr. Manel passou muito mal a noite, tivemos que tomar uma resolução. Está dentro dum frasco, a sua esposa já o levou, esteja descansado." Não, não. Se se levar alguma coisa daqui, há-de ser um saco comigo dentro. Não me partem aos bocados, ou se partirem de certeza que não vão começar por aí. Mais dia, menos dia, resolvo o assunto pelas minhas mãos, de uma vez por todas. Não deve ser problema: preservativo foi coisa que nunca usei e de descendência mal parada, se a houve, tratou a Madame, que me garante conhecer um orfanato de confiança, lá para as bandas de Badajoz. Ainda para mais sem limbo nem nada, estou certinho lá em cima. A não ser que se tenham esquecido do cheque em branco depositado na ranhura do Santuário de Fátima. Está bem que a conta não tinha provisão para lá dos cinco mérreis mas sempre ouvi do senhor prior que a intenção é que conta. E há lá melhor intenção que dar tudo o que se tem?
Nem devia falar de intenções, que só me lembra o estado em que estou. E no qual não quero ficar, nem por nada deste mundo. Se não puder fornicar tudo o que me aparece à frente, nem me interessa andar aqui mais. Basta! Não vou ficar à espera do cutelo para depois nem tomates ter para fazer o que tenho a fazer. Mais a mais, a oficina está entregue. O puto dá conta daquilo. Se não der, já por lá anda o Alcino. Foi o único acidente de percurso que me quebrou a frieza habitual. Na volta, nem ele percebe porque anda tão ligado à oficina. Aliás, nunca percebi se ele percebe alguma coisa de todo. Desde que fez 12 anos, descobri que escuso de lhe fazer a mesma pergunta duas vezes: a resposta é sempre aleatória, o que torna a compreensão daquela um facto desprezível. Vantagens de ser funcionário público; dizem que o alheamento intelectual é um direito adquirido. Deve ser a isto que o Professor Cavaco chama welfare state. Aliás, quando ouvi o seu célebre discurso sobre a produtividade lembrei-me de tornar o Ibeson meu filho adoptivo. Pode parecer que não tem nada que ver, mas o truque é que ele ainda pensa que está ilegal. E vai continuar a pensar, não haja dúvida: os tipos lá da Igreja dele não são estúpidos.
A noite será boa conselheira e vai esconder o que me espera lá em baixo. A vista até nem é má aqui de cima, pode ser que me distraia com as luzinhas. Não vou perder tempo a interrogar-me se a morte dói - deixo esse legado ao Alcino - ou se fico esborrachado o suficiente para deixar de ter relações sociais para lá de uma impressão - videntes, psiquiatras, bruxas, o sr. prior, o Ibeson, ninguém sabe explicar ao certo que raio se passou para a Marilene ficar naquele estado; aliás, terá alguma vez tido outro? Nem vou tocar em nenhuma das merdas que o Tó Manel me tentava impingir, senão ainda me detenho pela visão do Presidente do Conselho, flutuando sobre a chaminé da incineradora, a recomendar o uso de um agasalho adequado. Não, não, não! Renuncio aqui e agora a um futuro que não seja uma celebração do passado que tanto prezo.
Lá vem a puta da enfermeira...
Não volto a isto nem mais um dia.

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