Tó Manel

Isto de andar a correr há umas semanas anda-me a foder. Venham-me dizer que não ando o mesmo, andar? Quem me dera andar, caralho. Andar daqui pra fora. No sentido lato da coisa.
Estava noutro dia a falar com os cotas sobre a vida de merda que as pessoas levam hoje em dia. Cada vez temos mais máquinas para fazer o nosso trabalho, temos computadores, temos as merdas organizadas e… cada vez estamos mais fodidos. Eu que sempre fui contra estas merdas, que sempre achei que nos cabe a nós traçar limites… A falta do Manel, e não haver rigorosamente mais ninguém que possa fazer o meu trabalho, ou que oriente o brazuca, que não faz mais nada senão andar praí a sonhar acordado, anda-me a foder completamente. Não tenho horas livres, não tenho fins-de-semana tranquilos, os clientes a telefonar a massacrar quando um gajo tenta descansar um bocado. Não está nada fácil, e é fodido lidar com esta pressão. Porque há sempre mais gente a controlar do que gente a fazer as coisas. E infelizmente, ou um gajo faz tudo, ou já sabe que vai perder ainda mais tempo a desfazer a merda dos outros. EU NÃO AGUENTO! Podia cagar, mas e depois, um gajo vai viver de quê? E se um gajo não arranja mais nada e tem que voltar à estaca zero? Um gajo que tenta sempre levar as merdas dentro do razoável, e tem consciência destas merdas. Quando é assim e as coisas fogem do controlo é um sinal que estamos mesmo mal. E queres fugir mas a puta da sociedade tem tudo controlado, para fugires a esta merda não podes fugir desta merda antes. E assim continuas.
Voltando à cena da tecnologia, hoje temos merdas pra fazer tudo, mas andamos cada vez mais a correr porque as pessoas são estúpidas. Principalmente aqueles que, como não fazem realmente nada de útil, fodem a cabeça a quem tenta fazer. Cada vez menos esta escumalha se convence que as merdas demoram tempo, que para as coisas ficarem bem feitas precisas de pessoas competentes. Esta merda leva ainda mais tempo, não sai barato. Mas não, querem tudo. Querem as merdas baratas, querem as merdas depressa, querem as merdas já. E como a única cena com que se preocupam é com isso, esquecem que quem anda mesmo a foder o couro para fazer as cenas é de carne e osso, tem limites, não aguenta esta merda. As merdas até se vão fazendo, cansam, não percebem que o massacre constante não ajuda em rigorosamente nada. Não vão ficar com as merdas mais bem feitas, nem mais depressa, só vão foder ainda mais a cabeça a um gajo.
E enquanto esta pressão te vai fodendo a cabeça, por muito imune à cena que um gajo seja, há um mundo cá fora, à espera que continues da mesma maneira, à espera das mesmas merdas, da mesma paciência. Que faças o caralho que o foda, quando já não aguentas nem mais um segundo de obrigações. Quando queres paz, fazer as tuas merdas… não fazer nada, aliás, chegar a casa, esticar-te no sofá e vegetar, babares-te até mais um dia do mesmo. Mas não podes, tens a banda a dizer que temos que ensaiar, que precisamos de músicas novas prá maquete, tens os cotas a querer que os ajudes a preencher a merda do IRS, que vás ver da prenda pró casamento da tia não sei quê, tens o filho da puta do mundo todo a cair-te em cima. Não consegues dormir, sentes a cabeça como se tivesse um torno a apertar dos lados, não consegues relaxar num bocadinho que te sentas, sentes o corpo com dores, mas dormente, estás um zombie. Ires a grupos de terapia é do caralho se tiveres tempo para isso, e de qualquer maneira não ia ser no filho da puta do Brad Pitt que te ias transformar se te passasses. “I’m pretty fucking far from OK, man”. E o mundo não tenta entender isso. Continua à espera de um gajo normal e razoável. Um gajo que não se passe à mínima merda. E o filho da puta do braço continua a doer e sei que não está grande coisa. Quase desejo ter que ser operado a esta merda, ia ter algum descanso da oficina. Nem tempo para escrever... aliás, pensar tenho tido. E preciso tanto de pensar para aliviar esta merda toda, ando em overdrive e já não me apercebo de nada.
Enquanto a dor não vem não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Vejo uma luz ao fundo do túnel, e pode ser a oportunidade de mudar esta merda toda. Nunca o fiz, quando claramente o podia ter feito. Falo nisso, penso nisso, mas chega à hora e nunca sou capaz de pôr tudo em prática. Será que as pessoas pensam que sou mais um hipócrita? Se há merda que tento é dizer sempre a verdade, e tenho sempre essa merda na consciência quando digo as coisas. Mas tomates… o grande problema é ter coragem para dizer a verdade, para fazer uma revolução, para andar com as merdas para outro caminho, quando vês que este não leva a lado nenhum. Pode ser o empurrão que um gajo estava à espera. A sociedade ajudar-te, com esta pressão insuportável, a revolucionar a cena. Vou lançar os dados prá cena, é desta, parece-me. Espero que a falta de coragem não tenha hipotecado todas as minhas ambições. Que não tenha posto o pessoal da banda de pé atrás, que não tenha dado a impressão errada. Porque se andas a rondar a cena mas dás uma no cravo e outra na ferradura as pessoas fartam-se, pensam que és mais um, mais um hipócrita, mais um filho da puta. Mas não és, nunca tiveste foi coragem, de dizer logo que queres mesmo é andar com a banda prá frente e cagar prá oficina. Porque estas merdas têm que ser bem feitas. Não podia cagar para isto e deixar a oficina afundar-se. Entretanto a banda é só um grupo de amigos que se junta pra tocar e mais nada. Não é isso que eu quero, não estou bem aqui, mas nunca tive colhões para mudar isto. Podia tentar fazer as duas cenas a sério, mas isso não é a minha cena. Porque ia acabar por andar a enganar uns e outros. E lá se vai o discurso contra a hipocrisia, nesse caso não ia ser mais um, ia ser um dos piores. Nunca fiz a cena assim, não vou começar agora, nunca me ia perdoar, nunca ia viver bem com a consciência. Porque um gajo diz que se está a cagar, mas nunca está realmente. Agora, estou no limite, ando no red line há demasiado tempo, e o mundo anda em cima dos meus ombros, e a minha sanidade está seriamente posta em causa. E quero tanto que seja desta, espero que o pessoal não se tenha fartado das minhas cenas e tenha percebido ao longo deste tempo todo o que é que eu quero realmente. Uma coisa é certa, a partir daqui nada será como dantes… acho eu.

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