Tó Manel
Este fim-de-semana o concerto correu mesmo nice, apesar de ter andado a bulir na oficina como um animal, outra vez. A... mmm... morte... do Manel e rearranjar as merdas todas dão um trabalhão do caralho, mas safei-me no Sábado à noite pelo menos. Tocar em festas no Barreiro é sempre uma cena fixe, os gajos são bacanos e a malta por lá já começa a conhecer a nossa música. Ainda por cima, com os problemas sociais daquele lado as nossas ideias de intervenção caem que nem ginjas, mesmo que metade daqueles caralhos não saibam o que é anarquia (vão de skins a comunas, mas coitados, vivem naquele buraco de merda, desde o tempo do Estaline e do Hitler que não entra nada), muito menos a vanguarda. Agora, os Anarquia de Vanguarda começam a ser culto naqueles lados, não somos os Mão Morta, mas lá chegaremos... um dia...
E ir tocar à margem Sul fazem dum gajo um sonhador. Quer dizer, nem por isso. Mas aquela miúda na fila da frente, a cantar as nossas músicas de uma ponta à outra, isso é que fez deste fim-de-semana um grande fim-de-semana. E falar com ela. E ir com ela para o quarto. E ficarmos por ali a fumar umas brocas, a falar de música, nos nossos projectos de intervenção, das viagens dela. Uma cena do caraças, não houve sexo, não houve nada, só um abraço de despedida. De mim! Foda-se, uma besta como eu, que não sabe falar sem dizer 50 caralhadas por frase, que não sabe mais que 3 acordes e arranjar carros. Ainda por cima, sem ela topar, fiquei-lhe com o diário. Não o devia ter feito, porque agora entrei dentro da cabeça dela e estou a ficar fodido. Fodido no bom sentido, no sentido de em vez de sinapses (só sei o que são graças aos Guided By Voices) os meus neurónios andarem a fazer uma orgia uns com os outros. No sentido de me estar a ligar mentalmente tanto quanto não me liguei fisicamente com a miúda. Sinto que entrei dentro da cabeça dela, como no filme que o Alcino me falou noutro dia, de uns bacanos que entram na cabeça de um actor qualquer. Agora não a consigo apagar, ler os segredos dela foi melhor do que se tivéssemos passado a noite a foder. Espero que ela não fique a pensar que não gosto de gajas, apesar de termos falado abertamente das nossas curtes nesse aspecto, ou que não a curto, não, a miúda é linda. Mas agora entrei num outro nível com ela. Se acontecer é nice, mas se não fico feliz por ela existir, basta isso. Agora... há o problema de eu ser uma besta. Não percebo metade das merdas... espera lá... merdas? bem, adiante... cenas que ela escreveu, mas parecem poesia. Da que eu gostava de escrever, encantou-me de uma maneira a maneira como escreve (esta merda deve ser uma figura de estilo, só pode) que me encantei de uma maneira que não me encantava há muito (rói-te Camões). E fala francês, provavelmente explicava-me o que querem dizer as letras das músicas que o Alcino põe a tocar na grafonola do escritório do Manel quando vem tratar da papelada. Voltando à besta, tenho pena de não saber dizer as merdas de outra maneira, não estudei, pois não, mas não era por aí. Não tinha livros em casa, não tinha cotas que falassem comigo como os dela de certeza falaram com ela, não tinha ninguém que funcionasse no meu comprimento de onda, para conversar. Tínhamos o contingente, mas era mais música, e mais revolução, e por isso mais animalidade. Agora gostava de ser um gajo sensível, educado, sei que tenho as ideias, mas pô-las no papel... tenho que admitir que não sei. Depois de ler o quer ela escreve num diário, que ninguém vai ler (fui o primeiro dela pelo menos nisso...), não consigo deixar de pensar na beleza com que as palavras lhe saem da mão para o papel, palavras perdidas por ali, talento que não parece deste mundo, da mesma maneira que não me faz sentido nenhum como é que um animal como eu lhe pode despertar o mínimo interesse. Não ter o dom da palavra é só o início, há muito pior. Não é que eu não me curta, que não ache que, pró gajo que sou até me safo, que tenho ideias, e que tenho ideias com base no que penso das coisas, não porque sim, mas porque pensei bastante nas cenas e tenho os meus pontos a favor e contra.
Agora... tenho que estar consciente das minhas limitações, saber o meu lugar na cena, e saber que tenho falhas comó caralho. Todos temos, somos humanos, vivemos presos nesta sociedade de merda, escravos destes sistemas todos, mas de certeza que ela não. Parece que anda acima disso tudo, mesmo quando escreve sobre as angústias próprias de uma rapariga como ela, e a maneira fantástica como descreve a alegria fazem parecer que só fala do resto para não nos sentirmos ainda mais miseráveis. Bem, eu sinto-me miserável ao pé dela. Mas miserável de uma maneira fixe, porque admiro-a da maneira que ela me disse que me admirava também. E da mesma maneira que não percebo porquê, ela há-de ter as razões dela. Agora é arranjar maneira de entrar no diário dela. Bem, entrar outra vez, porque já lá está uma cena dum concerto, onde aparentemente eu estava demasiado fodido para conseguir dizer mais do que "aarrrrgggghhh" quando ela veio ter comigo.
Espero que não se importe com as bocas que lá escrevi quando lho devolver. Que quero devolver-lho, por isso é que fiquei com ele. Também, foi a lápis, pode sempre apagar e esquecer que Sábado à noite existiu. Eu não. E gostava de escrever sobre isso, mas não consigo, não da maneira que devia, mesmo que escreve vou ler o diário dela e rasgo tudo, porque me parece tão estúpido. Diários de gajas sempre achei que eram um cena estúpida e sem sentido, desabafos de adolescente sem o mínimo interesse pró que quer que fosse. Agora que um! E não sei escrever, e não quero uma cena estúpida sem sentido. Sei pensar, menos mau, mesmo que saia tudo atabalhoado, tudo ao monte, pensamentos sem grande nexo, coisas perdidas, frases que mudam de sentido a meio porque entretanto me perdi nos pensamentos. É como se não fosse eu a pensar, como se morasse um gajo na minha cabeça que me vai dizendo as coisas que penso. Melhor, que me fosse escrevendo as merdas em que tenho que pensar, alguém que não sendo eu se esforça por ser eu, por andar aqui escondido na minha cabeça a passar pensamentos que acabam por ser os meus. É uma cena marada, mas tenho esta ideia há uns tempos, que alguém mora na minha cabeça, e que eu não sou eu, mas se esse gajo não sou eu, então eu também não existo. Foda-se, tenho que deixar de fumar charros, esta merda já começa a parecer paranóica. Principalmente quando agora, além do gajo na minha cabeça, sinto que entrei para dentro do mundo de alguém. A blaue engel, como pediu que lhe chamasse (disse-me que é anjo azul em alemão - e que é um filme - isso lembra-me que tenho que começar a ir mais ao cinema).
Uma cena é certa, mesmo que tudo fique como está, o simples facto de saber que existe alguém assim já dá sentido à banda, à música, à arte, à minha vida. Saber que volta meia volta a vejo, que pensa como pensa, que sabe que eu existo, para mim chega. A parte física está a deixar de me interessar, conforme mergulho mais nas ideias, e conforme o filho da puta do trabalho que tenho tido me desperta, estranhamente, cada vez mais ideias, e vontadas, e maneiras de perceber o que se passa à volta, e outras maneiras de me ligar com as pessoas, bem mais difíceis, mas bem mais interessantes. E vou guardar esta merda toda na minha cabeça pequena e limitada, pode ser que um dia consiga que as cenas saiam cá para fora de uma maneira um bocadinho melhor. E com menos caralhadas.