Tó Manel

Chega de música! Não tenho feito mais nada nos últimos dias, a não ser pôr os phones nos ouvidos e cagar para o mundo. Porque o mundo não é fácil, e desta vez é que me fodeu a cabeça, mas já não aguentava mais sem contar esta merda a ninguém. E assim prefiro que o mundo saiba, apesar de tudo quanto o Manel me disse, e me ter pedido para não contar a ninguém. "Ninguém, ouviste puto?", foda-se, ouvi Manel, mas não se pode pedir isso a um gajo, viver com estes segredos, e logo a mim... que sou o gajo que nunca consegue ficar calado. Eu avisei-o, ele lá disse "Faz o que quiseres", e eu fiz, claro. Um gajo é livre para fazer o que quer, o que vale é essa merda. Se ele não tivesse dito "Ok, podes contar, tu é que sabes", eu ia ter que aguentar, mas nem lhe dei essa hipótese. E foram as últimas merdas que ele me disse, a última vez que o vi. Nem tive tempo de recuperar da cena, não tive tempo de viver a cena durante tempo nenhum, na prática, a cena nem sequer chegou a existir. Porque no momento em que ele começou a frase por filho, e vi o Manel a chorar, pela primeira vez, vi logo o que é que ele queria dizer. Que ele não conseguia manter as calças vestidas, toda a gente já sabia, agora, que a minha mãe também não... E depois foi hora de me vir embora, e basicamente tive pai, a sério, durante uns 5 minutos, junto à cama dele no hospital. Por isso o interesse em mim, por isso a confiança, por isso o orgulho sempre que eu fazia as merdas todas bem feitas. O gajo andava a educar-me pra continuar à frente da oficina, ele não queria mesmo mais ninguém pra pegar nisso. Agora há uma série de coisas que fazem sentido. O que não faz sentido é como é que alguém é capaz de viver com um segredo daqueles durante estes anos todos. Comigo não durou mais que um mês. Porque viver uma vida destas, onde não podemos exprimir os nossos verdadeiros sentimentos pelas pessoas, por muito que isso, nalgum ponto, magoe quem está à nossa volta, faz-me uma confusão do caralho. Eu não aguento isso, o cérebro começa a entrar no red line, sem um minuto de descanso, de folga. É viver uma vida inteira de sobressaltos e angústias. Por isso ganhei coragem, eu próprio, a coragem que o Manel nunca teve, e que o impediu sempre de fazer isto que eu fiz. Ele já não ia sofrer com isto e não, está morto e enterrado, e assim os que ficam sabem com o que contam. Não foi fácil, não sabia como ia ser, não sabia como iam reagir a minha cota, o meu cota, a mulher do Manel. A mulher do Manel eu sabia que ia cagar, como fazia prás outras putices todas dele. Tal como ele cagava para a filha dele ter nascido 7 meses depois de o gajo voltar do ultramar, e de lá ter estado 1 ano. Custou-me muito, tive que pensar muito como o ia fazer, se o ia fazer, mas viver com segredos é uma coisa que não aguento. E este tinha tudo para arrasar com uma série de merdas à volta. Mas ganhei coragem, e mandei a bomba. Estava tudo a desabar à minha volta, e já nem me aguentava com as merdas todas com que tinha que estar a aguentar, não ia aguentar com mais esta. E pum! Lá foi. E depois de o fazeres não há marcha atrás, nem travão de mão. Esquece. Não tens como fugir destas merdas. Claro que tive medo, muito mesmo. E se fodo tudo, quem é que nunca mais me quer ver à frente, quem é que nunca mais quer ver quem à frente. Sem culpa, porque infelizmente estas merdas não se controlam, não havia nada que eu pudesse fazer contra isto. A verdade estava lá, quieta, grande comó caralho, a destruir-me a cabeça por dentro.

Mas as cenas nunca são como pensas que vão ser, pensas que controlas a coisa e não controlas, esperas coisas que não são assim. E ninguém ficou contente, ninguém, e claro, não eu, que fiquei no meio daquilo tudo, a ver as cenas a cair à minha volta. Eu devia saber, eu devia ter aprendido com o Manel, devia ter ficado calado. Mas não, será que tenho culpa? Do segredo em primeiro lugar, e agora de não ser capaz de o guardar? "O Manel era o meu pai". Bem, esta nem nas estúpidas das novelas que a cota vê. As merdas nunca são assim na realidade, a cota devia saber dissso. Se calhar podia ter aprendido alguma coisa se visse mais novelas e ouvisse menos música. E só o gajo é que sabia, nem a minha cota, ele é que foi fazer as análises, quando as fui fazer para entrar para a oficina, bem estranhei aquela cena toda. Ele sabia tudo desde essa altura. E ficou calado, foi o que fez de melhor, pode continuar a viver a vida dele, a gostar de mim como um filho, quase, e a tratar-me como sempre me tratou. Não precisou de mudar nada, a diferença é essa. Bem, mas a minha estupidez continua a não ter limites, deitar isto tudo cá para fora, da maneira que fiz, ia acabar por magoar alguém, aí a minha estupidez veio toda ao de cima. E em vez de descarregar este cancro cá de dentro, arranquei-o à martelada, e o que ficou foi o buraco, vazio, e a sangrar por todos os lados.

Definitivamente, não era nada disto que eu esperava. E continuou a dar-se bem com o outro pessoal à volta. A mulher dele tudo bem já sabia da... espera lá... a Marilene... é minha irmã... Não, esta agora não, a Marilene é minha irmã. Por isso é que ele me disse sempre, para nem sonhar com ela. Por isso é que me ameaçou na altura em que andámos, e fez da minha vida um inferno, e lhe disse tudo o que disse sobre mim. Agora percebo, ela... Tudo o que sentia por ela nessa altura... E agora continuava a sentir, mas foi essa a única, única coisa que o Manel me fez jurar desde o primeiro momento, que nem sonhava com ela. Por isso é que eu me afastei dela, por isso é que a ignorava, para ela se desinteressar, e para eu próprio me defender e me afastar. Se nos habituarmos a tratar mal alguém de quem gostamos, começamos a viver aquela cena a sério e desinteressamo-nos também. E a verdade é que ter andado a comer as gajas, e os gajos, que andei a comer quando estivémos mais próximos, não teve nada a ver com isto. Era só eu a ser eu, mais nada. Agora... eu a pensar que o Manel estava só a ser um cota normal, a proteger a sua querida criança, estava a proteger-nos a nós. E este sonho com que eu vivia, que com a morte dele estava só à espera da mínima oportunidade para me reaproximar, acabou de vez. Estas esperanças vão sendo o que nos faz continuar. Agora, o sonho acabou, mas ganhei uma irmã, e agora posso tratá-la como sempre quis, posso voltar a ser simpático com ela, escuso de fingir, e de a tratar mal. E nunca mais ninguém vai ter que estar com merdas quando eu estiver com ela. Ganhei uma irmã, e posso continuar a minha vida, não sei bem como, mas posso continuar, agora não há nada a fazer. Nem posso esperar por chegar à oficina e contar-lhe esta merda toda. Ela nem faz ideia do que aí vem, será que este dia está marcado nas folhas do calendário dela?

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