Alcino Lopes

Estou anestesiado. Isto é a grande vida, aquilo por que toda a gente sonha e eu, eu não sinto nada. Talvez tenha sido das ganzas de ontem (ou talvez seja apenas eu), mas estou insensível a tudo. Rebobino, estou no sul de Espanha, vou assistir a um festival de música em mais um bocado das minhas férias deste ano, para já o festival ainda não começou, está um sol do caralhão e isto é um sossego. Ainda estou um pouco cansado e talvez seja isso que me deixa neste estado e a falar sozinho (ou talvez, de novo, seja apenas eu). Estou um bocado ansioso para que a coisa comece e até enchi um dos iPod com coisas dos gajos que vão tocar (cortesia do Tó Manel e afins) e estou com muita vontade de ver alguns ao vivo. Mas para já não consigo sentir nada, nem alívio, nem cansaço, nada. E a ansiedade que falo é, mesmo assim uma coisa esbatida, fico com a impressão que se fosse embora agora não ia fazer diferença nenhuma, nem pelo dinheiro que gastei para estar aqui e isto é significativo vindo de um agarrado (ao dinheiro) como eu.
Deixei a Oficina para trás e o caralho dos papéis e o Tó Manel a foder-me a cabeça com o IVA-não-sei-do-quê-das-sucatas-e-da-puta-que-o-pariu, deixei o serviço para trás, cheio de emigrantes estúpidos que acham que o estado lhes deve favores, mesmo quando eles se recusam a fazer o que quer que seja pelo estado, não querem pagar impostos porque dizem que não vivem cá, mas aposto que têm idêntica conversa no estrangeiro, onde dizem que são portugueses e não têm de pagar lá nada. Gajos mal-educados, arrogantes, estúpidos, surdos como a puta que os pariu a quem tem de se dizer a mesma coisa 3 vezes. Foda-se, que desespero!
E o cabrão do Tó Manel sempre insuportável estes dias (e ainda ando fodido com o gajo por não me ter arranjado um biscate na casa da Madame Filipa - é que, tanto quanto sei, aquilo está pior que a oficina e afinal o dono também era o Manel - tinha jeito para o negócio o velho).
É bom para o gajo aprender o que a vida custa, não é sempre coçar os tomates, fumar brocas, comer gajas e ouvir música enquanto se vai disfarçando que se arranja carros. Põe-me a fazer horas extraordinárias na oficina de volta de caixas empoeiradas, papéis amarrotados, cheios de nódoas de sandes de chouriço e vomitado de cerveja e whisky, facturas de merdas que não lembra a ninguém e que não têm nada a ver com a oficina, mas que o Manel guardou porque “é preciso despesas, e sobretudo é preciso não pagar nem um tostão para essas sanguessugas do fisco”.
Cabrão, andou a comprar peças nas sucatas e dos carros gamados e depois arranja facturas de cimento, tijolos, contraceptivos, roupa de marca e merdas assim. Bom, é Portugal e de certeza que o fisco se está a cagar para isto, eu sei que estou. Também, que se foda! O gajo é que fez a merda, mas está morto e com toda a certeza se está neste momento a cagar para as consequências (bem não faço ideia, não acredito nessas merdas de vida para além da morte, mas tenho a certeza que não lhe faz diferença nenhuma no estado em que ele está).
O Tó Manel que se lixe também, agora não tem para onde se virar quando quer perguntar onde é que a porcaria dos parafusos encaixam. É para aprender, quando devia estar a prestar atenção ao Manel andava na boa vida, ele era brocas, comer a sua gaja, foder carros uns atrás dos outros contra postes da EDP, bocas-de-incêndio e afins (dizia ele que estava aprender para tirar a licença de piloto profissional, não lhe bastava ser azelha e ainda por cima convencido…). Agora tem de se desenrascar. Se não for mais nada contribui para o avanço da tecnologia dos híbridos – uma mistura entre um Panda 4X4 e um 205 GTI é um híbrido (acho eu…), e pelo aspecto da coisa era isso que o gajo andava a fazer da última vez que pus os pés na oficina para fazer a revisão do carro.
Que se desunhe durante este mês, férias são férias e eu quero esquecer quem sou por um bocado.

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