Alcino Lopes

Nunca estive á vontade naquela montanha. Mas também quem me mandou meter-me numa merda daquelas.
Disse a toda a gente que ia para a praia ver gajas e beber cerveja e depois ponho-me a arriscar o pelo só porque é a única coisa que me faz sentir vivo de vez em quando.
Quando me perguntam o que faço nos tempos livres digo que trabalho num bar, que sou artista da arte do transformismo. É mais fácil, assim quem pergunta enoja-se e não pergunta mais nada. Não percebo porque é que faz confusão ás pessoas um gajo gostar de subir montanhas, ou vestir roupa de gaja, ou qualquer outra porcaria? Porque é que faz confusão ás pessoas um gajo gostar (e dizer que gosta) do que quer que seja, implique risco ou não? Basta que seja diferente e lá vem o "tu é que és maluco", ou o "panasca de merda", ou o "qualquer dia ainda te aleijas a sério", ou qualquer outro comentário imbecil de quem não compreende nem quer compreender que alguém expresse a sua individualidade a fazer algo que lhe dá prazer, seja a subir uma montanha, seja a pintar um quadro, seja com um corte de cabelo ou a vestir roupas diferentes, a ouvir música, o que seja.
Acho que me custou mais a explicar, a toda a gente a quem não menti, o que ia fazer do que efectivamente a fazê-lo.
Desde que o avião nos deixou no glaciar percebi que me tinha metido numa coisa para a qual não estava minimamente preparado, mas também acho que nada do que alguma vez tivesse visto ou feito me iria preparar para aquela montanha.
Estou para aqui a descrever aquela merda como se tivesse dobrado o Cabo das Tormentas e afinal correu tudo bem e ninguém se aleijou. Bem... quase, mas já conto.
Eu não estava preparado para ver uma fenda no gelo com espaço para engolir um autocarro e da qual não se vê o fundo, e foi isto o primeiro dia de caminhada. Não estava preparado para aclimatar mal á altitude e ser incapaz de dar dois passos sem parar para respirar. Não estava preparado para estar a quatro mil e tal metros de altitude e ter perto de quarenta graus positivos de temperatura dentro da tenda de dia e vinte e cinco graus negativos durante a noite. Não estava preparado para puxar uma porcaria de um trenó que tinha vida própria e opinião própria sobre o caminho a seguir.
Á distancia de alguns dias de reflexão acho que o que me fez desistir de tentar subir ao cume daquela montanha aos quatro mil e trezentos metros de altitude (quando ainda faltavam mais mil e novecentos metros verticais para subir) foi o facto de me ter assustado com a montanha em si (agorafobia?) e ter andado o tempo todo a tentar não me matar ali.
Meti na cabeça que para sobreviver nada podia correr mal, não podia faltar comida, o tempo tinha de estar calmo, o equipamento tinha de funcionar na perfeição. E isso não foi bem assim, a comida que escolhemos era um bocado intragável (esparguete com atum nunca mais na puta da vida, aliás, nem esparguete nem atum com merda nenhuma), o trenó era incontrolável (virava-se ao menor ressalto na neve, saía constantemente do trilho, estava mal encordado á mochila e ficava muito mais difícil de arrastar... parecia um burro teimoso), o combustível entupia constantemente os fogões, tínhamos isqueiros a menos, o telefone satélite que um dos gajos do grupo levou (um tijolo - literalmente - grande e inútil) nunca funcionou, nem nas cidades, as botas estavam sempre húmidas com suor e eram demasiado frias, levei toalhetes a menos e a higiene ficou um pouco limitada… é escolher.
Chegou a um momento em que não aguentei e aquilo tudo foi demais para mim, não estava preparado, a comida não entrava, tinha sempre demasiado frio ou demasiado calor, estava farto de desmontar o fogão para limpar, tinha o nariz em ferida de tanto limpar o ranho que pingava constantemente, já não conseguia suportar o cheiro a sovaco, peido, pés e colhão que saía de mim, a dieta de merda começou a provocar-me diarreia, não conseguia beber o suficiente para repor líquidos, não conseguia secar as botas, os óculos magoavam-me o nariz, queria uma coca-cola, comida que não me provocasse vómitos... E no campo 4 a 4.300 metros de altitude tomei a decisão de não subir mais e esperar ali que o resto do grupo tentasse ter uma aberta no tempo para tentar ir ao cume. Esqueci-me que ali vigora a lei do “desenrasca” do “aguenta…não chora!” e que por uma merda de nada correr mal o mundo não vai acabar e não vamos morrer todos, agora vejo que desisti cedo demais e que foi uma atitude de puto mimado. E eu que julgava que era melhor que isso.
Eles ainda tentaram, tínhamos um boletim meteorológico que dava uns dias com vento razoável na parte mais alta da montanha antes de entrar uma tempestade grande, quando soubemos disso eles fizeram rapidamente um depósito de comida perto do local do campo 5 (a zona de acampamento mais alta da montanha, a última antes do cume) e subiram dois dias depois para tentar a sorte. Tiveram azar, o vento nunca amainou o suficiente e o mau tempo entrou um pouco antes do previsto e tiveram de descer para o campo 4 no meio da tempestade. Depois foi arrumar a tralha e o plano era descer de uma tirada até ao acampamento base, durante o dia até ao campo 1, descansar aí um bocado e atravessar o glaciar durante a "noite" (naquela latitude e na altura do ano que foi, nunca fica realmente de noite) para termos as pontes de neve mais estáveis por cima das fendas no gelo e isso tinha sido tudo muito bonito não fosse cerca das 10 da noite um dos gajos ter tido um pequeno "episódio" de pedra nos rins e ter desatado a cagar “de jacto”, a vomitar-se a cada passo que dava e a mijar sangue. Tivemos de contactar as equipas de resgate e o gajo lá foi evacuado de helicóptero para o hospital enquanto o enchiam de drogas (Vicodin, morfina..., cabrão cheio de sorte, quando lá voltar também vou arranjar uma merda qualquer para fingir umas dores, é que os gajos ali têm drogas de qualidade... e dão aquilo quase sem um gajo pedir…), entretanto deixou-nos todo o equipamento e o trenó dele para nós carregarmos até ao campo base (só 9km de glaciar...). No campo base estivemos umas horas á espera de avião e foi na base do desenrasca, porque estava mau tempo e ninguém queria aterrar ali (a pista estava a perder a camada de neve e começavam a aparecer fendas no gelo na zona de aterragem) mas finalmente lá nos vieram buscar.
E acabaram assim duas semanas de montanha. A barba levou uma hora a desfazer (em duas semanas aquilo cresce um bocado), o sarro acumulado levou um bom e longo banho quente a tirar (e no fim ao passar a toalha saía pele morta como se caísse depois de um "escaldão" de verão). O esforço de descer a montanha deixou-me com dores musculares durante dois dias (já estou habituado de outras asneiras que faço). Mas já estou novo e já pareço uma pessoa outra vez.
No fim (depois do banho) só pensava em voltar lá outra vez e a ideia já fermenta, daqui a um par de anos, quando juntar dinheiro de novo... com melhor equipamento, com a experiência acumulada para evitar os erros de comida e combustível e resolver as falhas do equipamento... E fiquei a pensar que, se quisesse tinha subido um bocado mais (ou tudo) daquela merda, se tivesse tido um pouco mais de força de vontade para aguentar tudo o que não correu como prevíamos e tudo o que a montanha me fez sofrer (frio, calor, falta de ar, vento, neve, gelo, desconforto...), se... Como citava o Henry Miller - "Balls" said the Queen "if I had them I'd be King".
Fiquei a conhecer mais alguns dos meus limites e fiquei bastante desiludido por ter desistido com a fasquia tão baixa. Não é bem que tenha desistido, é mais que nem cheguei bem a tentar e mais enojado comigo me fiquei a sentir. Mas sei que sou capaz de lá voltar e desta vez com a vantagem da experiência e com a vantagem de saber o que me espera e de saber que nada disso é insuperável e que sou capaz, que aquilo não é nenhum Cabo das Tormentas. E a montanha é bonita, e vai valer a pena voltar.
Estou para aqui a falar disto como se levasse esta merda a sério. E talvez leve, há quem leve o trabalho, ou a família, ou as gajas, ou o que quer que seja a sério, porque é que eu não haveria de levar a montanha a sério?
Agora há merdas que não mudam, e o caralho do monte de lata e plásticos manhosos já cá está no "dótôr" Tó Manel outra vez, saudades? Subir uma merda de um passeio mais alto e lá vai a calibragem da roda, o alinhamento da direcção e mais meia dúzia de merdas do género. Já vi que qualquer mosquito de merda me fode o carro todo, mais valia ter comprado um Chaimite usado ao exército (parece que andam a rifar aquela merda). Podia dar problemas mas não era com um passeiozinho de merda que a direcção desalinhava...
Ao menos vejo que o Sr. Manel já cá anda de novo a controlar esta escumalha, a ver se isto volta a ser uma oficina que se preze. Nunca cheguei a perceber é porque é que o homem foi malhar com os ossos no hospital? Diziam que ele andava com a gaita em chaga, que tinha apanhado qualquer coisa com uma das badalhocas da casa de putas da Madame Filipa. Mas eu não acredito, que o Sr. Manel não é desses, então com a patroa que tem em casa… ui, aquilo é mulher de pelo na venta, não ia deixar o homem andar aí nos copos e nas putas assim desgarrado. Nah! Cá para mim foi uma dessas viroses que um gajo apanha hoje em dia sem saber porquê? O importante é que ele está de volta para por ordem nesta escumalha, isso é que é importante.

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