Tó Manel
Ando preocupado com a perda do meu sentido de humor. Achava que era uma das coisas que me definia e preocupa-me poder estar a tornar-me numa pessoa amarga, que não esboça um sorriso, que se irrita por uma merda qualquer e que tudo lhe faz confusão. Que por não saber ser feliz (para mim isto é a mesma merda que ter sentido de humor) há-de foder o juízo a toda a gente à volta dela até estarem todos tão miseráveis como ela. Acho que os meus pensamentos andam demasiado fodidos, espero conseguir manter pelo menos o sarcasmo e a ironia, que são sempre úteis nestes casos. E sentido de humor é uma cena que não pode faltar agora, o Manel ainda deu um ar da sua graça, mas ar é coisa que o cabrão do velho não tem na graça, parece que desta é que morreu mesmo.
Acho que um gajo não deve deixar de se rir com esta merda, porque tudo isto, a vida, a morte, o que andamos praqui a fazer é tão absurdo que só levando a vida na desportiva é que um gajo se safa. E do Manel, ia-se safando tudo menos o caralho, precisamente. E lá desporto fazia ele, não havia miúda da casa da Filipa (miúda... bem... hoje aos 40 ainda há gajas que acham que estão na flor da idade ou o caralho, ainda por cima se apanham um puto como eu...) que ele não visse se estava apta para satisfazer todas as fantasias que a mulher dele até satisfazia, e que ele não quis por ela se ter transformado naquele monte de banhas. Agora fodeu-se à grande, e acabou. É uma cena do caralho isto, pensar que a oficina era o Manel, que sem ele nada desta merda ia fazer sentido. Mas faz, continua tudo na mesma, o mundo pula e avança e o caralho. Azar o do velho. Mas azar? Um gajo depois de morrer não tem azar, acabou, não está contente, mas também não está triste, não curte mas também não sofre. Tenho uma atitude marada para a morte, para a doença é mais ou menos a mesma merda, pareço um filho da puta insensível. Quer dizer, para os outros pareço insensível, isso não quer dizer que ignore a cena. Acho que a lamechice, e os lutos e essas cenas não fazem muito sentido, a preocupação, o ir ao cemitério. Segue em frente, man.
Agora, prefiro pensar e tirar conclusões sensatas das merdas do que entrar em histerias. OK, o pessoal morre, é fodido não voltar a estar com eles, mas tudo bem. O gajo vai fazer tijolo e vai, nem a cena dos cemitérios. Porque acho que quando o gajo morre, morreu, não é por ir ao sítio onde as minhocas o estão a transformar em estrume que penso mais ou menos na pessoa. O que fica é o resto, o que se aprendeu, as memórias, os exemplos que se devem seguir. E o Manel ensinou-me bué do que sei, não só de automóveis mas de uma série de outras merdas bem mais importantes. Outra merda que não curto nesta alturas é o pessoal depois de morrer passar a ser um santo do caralho. Era um bom marido, um amigo… era um filho da puta às vezes, estava-se a cagar prá mulher, andava nas putas, sei lá mais o quê. O problema é que, para a sociedade, todos temos que ser perfeitos, e não somos, nem lá perto. Então só se guarda o que interessa aos outros nestes casos. Que se foda isso, somos pessoas, com falhas, e isso é importante mesmo depois de lerparmos. Para a Humanidade, ficou a respeitável oficina de mecânica.
Por falar em oficina, está mais que visto quem é que vai ter que tomar conta disto. O brazuca está bem no meio dos khmer, a miss bikini pequenino à bolinhas amarelas vai ter que ajudar a gerir esta merda, mais não seja para ver a quantas andamos, já que dela não se vê grande coisa na foto (nos anos 70, quando o Manel andava a comer a mãe dela no avançado na Costa tinha sido um escândalo). Bem vais ter que aguentar com marcadorzinho vermelho nos dias de pagar as contas, love. E por falar em contas, o Alcino é que é gajo para me ajudar, contas pra fazer é coisa que não lhe falta lá na repartição. E com estas viagens ao Alaska e o caralho, espírito de sacrifício e vontade de se sujar um bocado não lhe hão-de faltar também. Cair num buraco por cair, mais vale este do que um fenda no gelo no meio de um glaciar a que não vês o fundo.
De início vai ser assim, a seguir é ver se consigo pôr a parte das reparações a trabalhar sozinha, e ficar eu com a gestão. Basicamente fazer a vida do Manel – com menos putas e mais Rock N’ Roll.