Marilene: a menina do calendário

Snif... Snif... Ai que o meu coraçãozinho de papel não aguenta! Primeiro, a morte do meu querido Paizinho (que não deve estar no Céu, não senhor, mas por quem eu vou rezar muito, para que um dia se junte à minha querida mãezinha, que nosso Senhor a guarde até esse dia! E ao meu querido pai, que a mãezinha há-de querer dizer-lhe das boas!). Ainda por cima, o preto não combina nada com as minhas bonitas folhas e a minha cor de pele (como já estamos em Julho, o Senhor Baptista, que era um fotógrafo às direitas, sem segundas intenções, como me explicou, fez um truque lá com o aparelho dele, para eu ficar com um ar mais saudável, assim com a pele mais reluzente!). E, agora, tenho de dividir a herança com o Tó Manel! Isto já é demais! Que as coisas nunca tenham resultado entre nós, não interessa! Eu tinha de arranjar uma distracção para os meus dias, para além de ver as horas passar, já que o Senhor Manel nunca quis pôr aqui a tv e as novelas da telefonia já não são como antes... E, então, imaginava, na minha pobre cabecinha de papel, uma história romântica, daquelas com uma praia de fundo (pobre Caparica! Snif... snif... nem me quero lembrar da Caparica!), em que eu e o Tó Manel iríamos, um dia, ser felizes para sempre, a correr junto ao pôr do sol, com as minhas folhas ao vento... Elas fazem um barulho tão giro, quando o vento lhes bate assim devagarinho, ao fim da tarde... Com a galdéria, nunca me preocupei muito. É só fazê-la pensar que manda aqui, que não chateia ninguém. A pobrezinha nem sabe o que é dinheiro de papel. Já eu, entendo-me bem com ele. É cá da família. Um pouco mais resistente e as cores não são tão bonitas, mas eu não me importo. Damo-nos bem e isso é o mais importante numa família! E o pior, é que o Tó Manel agora é mesmo capaz de pôr o Ibeson a mexer (anda sempre a dizer que ele não faz nada, a não ser recitar poesia) e colocar o Senhor Alcino a tratar da contabilidade. Ai, que pesadelo! Como é que eu vou sobreviver, se o Ibeson se for embora e me deixar aqui à mercê das mãos gordas do Senhor Alcino? Ai, que nem quero pensar nisso! Tenho de arranjar um plano! Tenho de arranjar um plano!

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