Tó Manel

Bem, apesar dos stresses iniciais acho que as coisas se estão a compor. Afinal, se alguém fez asneira foi o Manel, e esse já cá não esteve para contar a história. E, devagarinho, as coisas voltam mais ou menos ao seu lugar, mesmo que nada fique como era antes. Mas as surpresas do Manel não acabaram ainda, e se a Marilene começou logo com coisas da herança, nem ela sabia o que a esperava. Porque o interesse do Manel na casa da Madame Filipa não era só diversão. Não senhor, o cabrão do velho era dono de metade daquela cena, e recebia as comissõezinhas dele por fora, se recebia. E não deve ser pouco, apesar dos tempos dourados destas cenas já terem passado. Que agora os betos de merda, com os seus Audis A3, e os seus fatinhos da Decénio curtem ir ao Champanhe, e ao Passerele e a essas merdas, ver brazucas e gajas de Leste a dançar. Não entram em buracos daqueles, aquilo é só velhos babados aqui do bairro, uma decadência do caralho, é o que é. Aqueles sofás a dizer com os cortinados de veludo vermelho, os móveis dourados, os abat-jours, tudo mais que gasto, coçado, cheiro de nódoas. Aquele luxo todo já passou o decadente há muito tempo. Isso e as gajas que lá trabalham. Grandes estrelas da revista passaram por lá, dizia o Manel. Pois passaram, uns bons 30 anos depois dos tempos áureos do Parque Mayer, quando o cu já era do tamanho de um pequeno país. E quando andar a dizer piadas de merda em trajes de plumas e lantejoulas já não pagava as contas de casa. E agora herdamos esta merda também. Nem sei o que é que vamos fazer àquilo, mas não vai ser a Marilene que vai para lá, que eu não deixo. O bikini com que está já não se usa desde o fim dos anos 70, mas a minha mana numa daquelas paredes ao lado do Lago dos Cisnes é que não. Por muito que agora ande com merdas por causa das partilhas, não lhe ia fazer isso. Mas também não vou ser eu, e agora o que é que faço? A Filipa está velha e acabada, mas é tudo o que tem e não consegue andar com aquilo sozinha. E é pena as miúdas… miúdas… bem, adiante, que lá trabalham estarem todas com artroses e espandilose e o caralho que as foda, porque senão ia fazer uma cena do caraças. Punha-as aqui a lavar os carros, de T-Shirt e bikini, com os clientes dentro do carros, e ganhava-se na publicidade à oficina e na publicidade ao antro. Mas assim, nem para fazerem as limpezas disto de fato-macaco servem. Será assim tão difícil arranjar brazucas boas? Não me parece. Gajo bom para isso era o Ibeson, é isso! O fatinho branco dele, com uma camisola de alças, havaianas e um chapéuzinho de palha. E sempre pode trazer as não sei quantas irmãs que tem lá no Mucugê, ou o raio que o parta, para aqui. Lá pinta de brazuca chulo tem o gajo. Ficava aqui durante o dia a fazer o que quer que seja que ele faz por aqui, e à noite mudava para a outra identidade. E podia ser que descobrisse a verdadeira vocação dele, que a mecânica não é de certeza. Até o mandava embora, mas devo ter herdado o coração de manteiga do Manel, eu sei que o desgraçado não ia sobreviver sem a Marilene. E não o quero ver por aí, perdido pelos cantos, ainda por cima se aceitar ajudar a tomar conta da casa da Madame Filipa ainda se tentava e se perdia como o Manel se perdeu. Apesar de também não andar muito contente com a atitude da Marilene, sei que ela gosta dele e não lhe ia conseguir fazer uma desfeita destas. Por muito que, neste momento, me apeteça.

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