Alcino Lopes
Até já me custa vir aqui a esta espelunca sebenta e ouvir sempre as mesmas perguntas de merda; Épá ó Alcino, quando é que arranjas gaja? Tu não serás mas é panasca? Qualquer dia apareces aí de mão dada com um “Dorival” (presumo que seja um desses primos rabetas do braza)... E merdas afins.
O que é facto é que, não tendo eu gaja, gostava de vez em quando de falar de gajas, mas já me vai custando, já me vou esquecendo do que isso é. Deve ser como andar de bicicleta, parece que é uma merda que um tipo nunca esquece, mas que se estiver uns tempos sem fazer não se livra de marrar com os cornos no chão umas quantas vezes e de passar umas vergonhas antes de dominar o velocípede de novo, enfim… uma complicação.
Tenho pensado bastante no motivo que me leva a estar há tanto tempo sem gaja; tenho pensado longa e profundamente em quais são os motivos que me levam a rejeitar a ideia de ter uma relação com uma mulher (sim, porque quanto a homens estou bem esclarecido; podem ser gajos porreiros, bonitos mesmo, mas já me custa muito cagar, quanto mais ainda andar a meter coisas pelo cú acima).
Porquê esta rejeição da ideia de uma relação duradoura com alguém? Porquê esta rejeição da convivência com uma mulher (porque ouvi dizer que conviver com mais que uma não é socialmente bem aceite… e até percebo porquê, só o trabalho que deve dar aturar uma…)? Porque é que me acontece com frequência olhar para uma mulher, concluir que ela é de facto uma criatura divinal, linda de morrer, com um corpo perfeito, etc.; e depois começar a pensar no trabalho (sim, que não é só timidez… é preguiça!) que dá a ir conversar com ela, convidar para um café (ou para qualquer outra merda semelhante), arriscar encontrar uma parola, uma acéfala, uma convencida… ou fazer figura de urso, blá, blá, blá... E para quê? Para conseguir levá-la para a cama (ou qualquer outro local onde dê para foder)? Para quê? Depois um dos dois vai começar a pensar que deve alguma coisa ao outro (ou que o outro lhe deve alguma coisa) por ter acontecido “o amor”, e começam as complicações.
Não, não gosto da forma como os seres humanos gerem esta coisa das relações afectivas interpessoais para além da amizade e isso tem-me levado pura e simplesmente a rejeitar esse tipo de relacionamento com quem quer que seja. Depois penso de forma mais simples: Então eu que não tenho lugar na minha vida para um cão nem para um gato nem para um canário nem um peixe; eu que nem sequer tenho uma planta… vou agora arranjar uma gaja lá para casa? Nah! Não faz sentido; e eu gosto muito que as coisas façam sentido.
Também tenho vergonha de ser normal e é por isso que não arranjo gaja. Não consigo encontrar em mim nada que seja minimamente atraente para uma gaja. Não consigo encontrar em mim nada que possa considerar como atraente, nem física nem intelectualmente. Sou um gajo normal; tão normal que quase nem existo. Não sou particularmente brilhante nem me destaco de ninguém em nada do que faço e não é por ser o que (e como) sou (e não é de certeza pela minha “personalidade cativante”) que gaja nenhuma se vai interessar por mim. Talvez esteja a dizer isto porque nesta fase não tenho tido tempo quase nenhum para mim e esteja a descer ao inferno da minha incapacidade para existir de uma forma aceitável. E talvez isto seja mesmo eu - o descomunal monte de merda que pensou nisto.
Já tentei viver e comportar-me como um porco lúbrico; disse de mim para mim: Solta o talhante que há em ti! Uma gaja não é mais que um pedaço de carne pendurada num matadouro da qual aprecias as formas, a qualidade da carne, avalias a vontade que te dá de a comer, isto tudo antes de fazeres o esforço de pagar (sim, porque por muito que um gajo não se dê conta, paga sempre; pode ser mais ou menos consciente, pode custar muito ou pouco... mas paga) para comer aquilo. E se te babas da primeira vez que olhas para a carcaça podes até chamar-lhe “amor á primeira vista” (ou uma “rebarba” monumental), o resto é secundário. Se a gaja é inteligente ou uma burra de merda, se a gaja é divertida ou uma entronhada de merda, se a gaja é um doce de criatura ou uma cabra de merda, no fim de contas o que é que isso interessa? É carne para foder e é… Não é que isto não fizesse sentido (fazia e muito), mas nem assim consegui; acho que não tenho espaço na minha existência para mais ninguém além de mim. Dou-me demasiado trabalho e canso-me demasiado comigo para ter energia, tempo, dedicação, atenção, carinho, afecto,… por mais alguém para além de mim; e nem assim consigo gostar muito de mim.
E isso é mais outra coisa que me fode a cabeça; se eu não consigo gostar de mim, se não me acho grande coisa como pessoa (eu, que me conheço melhor que qualquer outro ser humano), como é que pode existir alguém neste planeta que goste mais de mim que eu, ou pelo menos o suficiente para suportar conviver comigo de livre vontade, sem constrangimentos ou por qualquer tipo de obrigação? E como a imagem que tenho de uma “ralação” é a de um gajo amarrado a um poste, a ser chicoteado e retalhado enquanto lhe arde uma fogueira debaixo dos pés (dito assim até parece agradável), tento evitar que isso aconteça. Não é que eu não seja simpático para as fêmeas ou nada disso, é só que tenho pavor a relações e isso percebe-se e as gajas retraem-se e eu agradeço.
Se vivesse numa gruta era um eremita, assim não sei mesmo o que me chamar. Não é bem misantropo, porque embora a espécie humana me enoje bastante, não é o suficiente para evitar por completo o contacto com outros seres humanos. E também, eu gosto de algumas pessoas, mas acho que gosto delas pelo intelecto, pelo exemplo que são para mim, pela atitude, enfim, por serem quem são e por me atraírem. E algumas dessas pessoas até são gajas, mas não há nada de sexual nessa atracção, é apenas gostar de absorver conhecimento, de partilhar experiências diferentes, gostar de me divertir a conversar, de fazer coisas diferentes, de comunicar e interagir sem qualquer plano físico envolvido na coisa. E isso leva-me a não querer ter relações afectivas para além da amizade. Por exemplo, estes gajos aqui na oficina até são uns gajos porreiros mas não me juntava com nenhum deles (e o facto de me servir do calendário da Miss Tremoços ’75 para abrilhantar as minhas sessões de “bilhar de bolso” não quer dizer nada). Tá bem que são gajos e eu não gosto de cagar para dentro, mas mesmo que fossem gajas isso não iria fazer diferença nenhuma, a convivência mata a relação, mata o “amor”; se vives com uma pessoa todos os dias, vai chegar uma altura em que deixas de evoluir, deixas de ter algo para dar, porque já deste tudo e vais também chegar á conclusão que, por muito atraente e interessante que ela seja, já não há ali mais nada para ti e (à força de nos martelarem a cabeça com esta ideia de relações duradouras, de compromissos vitalícios) depois vem a tortura de arranjar uma boa desculpa para a separação e isso normalmente é algo que vai magoar um dos dois (ou os dois) e eu para me magoar prefiro dar um pontapé numa pedra ou uma martelada numa unha.
Sexo... bem, parece que até é bom e tal… ainda experimentei uma vez ou duas, mas aquilo não é para mim; ou sou um porco egoísta que não pensa em mais nada senão no próprio prazer ou sou o gajo frustrado que tenta mas não consegue dar prazer á parceira; pode ter corrido bem uma vez por outra mas foi pura obra do acaso (tipo roleta russa) e na análise estatística da coisa não vale os inúmeros desgostos e frustrações para uma vez ou duas na vida em que pode até ser essa coisa agradável. A atitude honesta seria pagar a alguém profissional para me prestarem o serviço, mas a ideia repugna-me - recuso-me a pagar por uma coisa que deveria ser consensual e não comercial. Não condeno ninguém por escolher a profissão que quiser, não condeno ninguém por pagar pelo que quiser, mas não sou cliente desse tipo de serviços e não preciso assim tanto de contacto físico com outros seres humanos; para isso ia aprender danças de salão.
Agora, ando é farto de aturar as bocas destes cabrões, mas quanto a isso não há nada a fazer; também não vou arranjar aí uma badalhoca qualquer num canto só para aparecer aqui com ela para lhes calar a boca.