Alcino Lopes

Tó Manel, cabrão! Senta-te e agarra aí uma “mine”, bebe aí um copo ou o caralho.
Faz tempo que não te via pá, mas isto não tem andado para brincadeiras. Não é que aqueles fascistas de merda agora querem que eu apareça no serviço e que trabalhe enquanto lá estou?!? Nem tempo tenho tido para coçar os tomates. Ocupo-me demasiado a pensar em maneiras alternativas de me esquivar ao trabalho. É que parecendo que não, é coisa que cansa.
Não pá, não tem nada a ver com essa merda de controlos pidescos de correio electrónico. Essa merda, pelo que me contaram, é mais uma notícia requentada, daquelas que os jornais gostam de publicar apenas para agitar as águas. Ao bom estilo do controlo de massas através dos meios de comunicação social… são os anarcas a espalhar a confusão usando as técnicas dos fascistas… é muito “ismo” à mistura.
Essa história de andarem a vasculhar o correio electrónico dos gajos do fisco parece que já vem dos tempos do Paulo Macedo (aquele gajo do BCP que contrataram para actualizar os métodos de extorquir dinheiro aos contribuintes).
Esse banqueiro manhoso e deficiente não gostou que um daqueles gajos em quem ele supostamente mandava tivesse espalhado a vida fiscal dele nos jornais e quis saber se tinha sido mesmo alguém da própria casa a chibar-se.
Um juiz acéfalo achou que a melhor maneira de fazer a coisa seria ao bom e velho estilo PIDE-DGS e vai daí mandou analisar a base de dados do correio electrónico do fisco e deu em nada porque a cópia de segurança de mensagens apagadas parece que só era mantida durante 8 dias (fora as que seriam individualmente arquivadas por cada utilizador). Resultado: quando despacho foi dado já as eventuais mensagens de chibanço tinham ido pró galheiro e o gajo ficou a chuchar no dedo. E também não me parece que quem fizesse isso fosse usar o correio do serviço (embora haja lá Einsteins bem capazes de terem considerado a hipótese… épá, se tivemos juízes que mandaram investigar isso como sendo uma possibilidade, porque é que não pode haver lá gajos com o calibre intelectual de um juiz?!?). No fim gastou-se dinheiro com nada e empatou-se o tempo de um tribunal com uma merda sem jeito nenhum… é o costume.
E não se percebe porque é que esta merda está a ser falada agora de novo.
Eu estou-me a cagar se alguém lê o que escrevo ou não… Os gajos não vão entender metade do que lá está dito. E se entenderem também vão entender que é para se rirem com a coisa e mais nada. Se o problema é ofender alguém não se podem queixar, que eu para ofender não sou de favoritismos – ofendo toda a gente.
Também não me importo que vejam os mails que recebo - pelo menos que haja mais alguém para além de mim a masturbar-se com a boa pornografia que me enviam.
E juízes virem para jornais e tal, comentar e usarem esses chavões de sermos meros códigos de barras é outra palhaçada. Dizem isso como se fosse uma grande novidade… nós sempre fomos números (passar a ser código de barras é upgrade) e sempre fomos tratados como tal. O merdetíssimo juiz devia ter-se lembrado disso quando ele ou um seu distinto colega autorizaram por despacho que fossemos assim tratados… vir agora chamar (e, por conseguinte auto-intitular-se) fascista (é por outras palavras mas é isso que o gajo quis dizer) a um colega de profissão parece-me… mmm, estúpido!
Mas conta lá cabrão, como é que vai a tua vida? O que é que tens feito? Continuas mergulhado até aos cotovelos em óleo queimado e fibra de vidro ou cagaste na herança do Manel e já te lançaste por conta própria como o novo Marco Paulo?
Ainda tens o estaminé aberto? Tenho de lá levar a sucata para mudar o óleo. Tenho-me esquecido e aquela merda já deve estar mais queimada que a pelo do gajo que elegeram para mandar na América. E por falar em mudar o óleo, tenho de passar na Madame Filipa para tratar disso também, que a “Nicole” de borracha que comprei à 15 dias também já estourou (ainda estou para perceber de que raio é que os gajos fazem aquilo que não dura nada) e eu ando a ficar um bocado “enqueijado”.

Alcino Lopes

Isto corre mesmo bem!
Não bastava ter ficado trancado aqueles dias todos naquela espelunca sebenta, sem comida que se visse, a beber água destilada dos limpa vidros. Para tornar isso numa coisa completa, para culminar com um dilúvio de merda em cima daquilo que já estava a ser uma cagada bem completa ainda fui atropelado por um cabrão bêbado que ainda hoje está para perceber como é que um gajo todo rasgado, coberto de óleo queimado, com ar de quem fugiu de uma "instiuição", lhe apareceu à frente do carro. Bem... não foi bem aparecer, deu-me uma cãibra a meio de atravessar a rua e o cabrão, que devia estar a ver a dobrar, deve ter pensado que ia acertar no "outro eu" (o meu gémeo etílicamente criado naqueles cornos de bêbado). E cá para mim pensou que de facto não tinha acertado em ninguém, porque continuou estrada fora como se não tivesse acabado de atropelar ninguém e ainda me fodi que tive de pagar as contas do hospital, dos médicos e dessa merda toda porque nunca ninguém conseguiu saber quem era o gajo.
Por tudo isto o meu obrigado, obrigado pelo presente de gesso que trago no pé. E ainda... obrigado por me terem finalmente mostrado o que é um menáge à trois, mas sinceramente eu tinha cá para mim que seria uma coisa diferente. Quando me falaram que ia passar uns tempos agarrado a um par de canadianas confesso que a primeira coisa que me ocorreu NÃO foi a imagem de duas muletas... Duas gémeas canadianas loiras, a falar inglês com sotaque afrancesado, pernas até aos sovacos, em lingerie provocante... SIM! Um par de muletas de alumínio... mmm... NÃO!

Ibeson Gudiear

Klanc, Klanc, Klanc... Vixe pô já não ouvia essi bárulho de fechadura ferrugenta à muito tempo.
Têas di Áranha nas paredes e tudo escuro, mas o Tó não tein vindo cá não? Não tem carro ninhum cá dentro nem óleo no chão.
E...E...E a minha Márileni disapáreceu!!! Será que foi rápitada como a moçita ingresa?
Ei espera lá mas aquele é o Arcino, o que é que aqueli coirão tá fazendo aqui dentro fixádo e dormindo ná minha cama filho de uma onça!

- Ó Arcino acorda aí oh corno!!! Ocê chêra mal pá burro à quanto tempo está oçê aqui? Onde tá minha Marilene?

E não é que o ome saiu correndo daqui? Parecia que não via luz do dia à muito tempo e acho mesmo que não, com um cabelo e uma barba daquelas não devia vê mesmo. Mas esta oficina está estranha até parece que o espirito do Seu Máneu anda pairando por aqui.

A única coisa que encontrei foi um bilhete do Tó.

"Ibeson

Quando leres este bilhete é sinal que não estou aqui à já algum tempo, resolvi suspender esta vida de óleo e desperdicíos e tentar fazer...Fazer outra coisa qualquer, sei lá o quê mas fazer outra coisa qualquer.

Beijinhos
Tó Manel"

E agora o que vai ser de mim?

Alcino Lopes

Épá, querem ver que estes cabrões se foram todos embora e me deixaram aqui trancado?
Tó Manel, Ibeson?
E não é que foram mesmo, FILHOSDAPUTAAAAAGGGGHHHH!!!!!!
Tirem-me daqui caralho!!!!
Abram a merda da porta que eu quero ir para casa!!!!!

Telefonia

"Well, Frank settled down in the Valley
And he hung his wild years
On a nail that he drove through his wife’s forehead.
He sold used office furniture out there on San Fernando road
And assumed a $30.000 loan at 15¼%
And put a down payment on a little two bedroom place.
His wife was spent piece of used jet trash
Made good Boody Marys, kept her mouth shut most of the time.
Had a little chihuahua named Carlos
That had some kind of skin disease and was totally blind.
They had a thoroughly modern kitchen,
Self-cleaning oven(the whole bit),
Frank drove a little sedan
They were so happy.

One night Frank was on his way home from work,
Stopped at the liquor store,
Picked up a couple of Mickey’s Big Mouths.
Drank’em in the car on the way to the Shell station,
He got a gallon of gas in a can,
Drove home, doused everything in the house, torched it.
Parked across the street, laughing, watching it burn,
All Halloween orange and chimney red.
Then Frank put on a top forty station,
Got on the Hollywood freeway, headed north.

Never could stand that dog."

Alcino Lopes

Até já me custa vir aqui a esta espelunca sebenta e ouvir sempre as mesmas perguntas de merda; Épá ó Alcino, quando é que arranjas gaja? Tu não serás mas é panasca? Qualquer dia apareces aí de mão dada com um “Dorival” (presumo que seja um desses primos rabetas do braza)... E merdas afins.
O que é facto é que, não tendo eu gaja, gostava de vez em quando de falar de gajas, mas já me vai custando, já me vou esquecendo do que isso é. Deve ser como andar de bicicleta, parece que é uma merda que um tipo nunca esquece, mas que se estiver uns tempos sem fazer não se livra de marrar com os cornos no chão umas quantas vezes e de passar umas vergonhas antes de dominar o velocípede de novo, enfim… uma complicação.
Tenho pensado bastante no motivo que me leva a estar há tanto tempo sem gaja; tenho pensado longa e profundamente em quais são os motivos que me levam a rejeitar a ideia de ter uma relação com uma mulher (sim, porque quanto a homens estou bem esclarecido; podem ser gajos porreiros, bonitos mesmo, mas já me custa muito cagar, quanto mais ainda andar a meter coisas pelo cú acima).
Porquê esta rejeição da ideia de uma relação duradoura com alguém? Porquê esta rejeição da convivência com uma mulher (porque ouvi dizer que conviver com mais que uma não é socialmente bem aceite… e até percebo porquê, só o trabalho que deve dar aturar uma…)? Porque é que me acontece com frequência olhar para uma mulher, concluir que ela é de facto uma criatura divinal, linda de morrer, com um corpo perfeito, etc.; e depois começar a pensar no trabalho (sim, que não é só timidez… é preguiça!) que dá a ir conversar com ela, convidar para um café (ou para qualquer outra merda semelhante), arriscar encontrar uma parola, uma acéfala, uma convencida… ou fazer figura de urso, blá, blá, blá... E para quê? Para conseguir levá-la para a cama (ou qualquer outro local onde dê para foder)? Para quê? Depois um dos dois vai começar a pensar que deve alguma coisa ao outro (ou que o outro lhe deve alguma coisa) por ter acontecido “o amor”, e começam as complicações.
Não, não gosto da forma como os seres humanos gerem esta coisa das relações afectivas interpessoais para além da amizade e isso tem-me levado pura e simplesmente a rejeitar esse tipo de relacionamento com quem quer que seja. Depois penso de forma mais simples: Então eu que não tenho lugar na minha vida para um cão nem para um gato nem para um canário nem um peixe; eu que nem sequer tenho uma planta… vou agora arranjar uma gaja lá para casa? Nah! Não faz sentido; e eu gosto muito que as coisas façam sentido.
Também tenho vergonha de ser normal e é por isso que não arranjo gaja. Não consigo encontrar em mim nada que seja minimamente atraente para uma gaja. Não consigo encontrar em mim nada que possa considerar como atraente, nem física nem intelectualmente. Sou um gajo normal; tão normal que quase nem existo. Não sou particularmente brilhante nem me destaco de ninguém em nada do que faço e não é por ser o que (e como) sou (e não é de certeza pela minha “personalidade cativante”) que gaja nenhuma se vai interessar por mim. Talvez esteja a dizer isto porque nesta fase não tenho tido tempo quase nenhum para mim e esteja a descer ao inferno da minha incapacidade para existir de uma forma aceitável. E talvez isto seja mesmo eu - o descomunal monte de merda que pensou nisto.
Já tentei viver e comportar-me como um porco lúbrico; disse de mim para mim: Solta o talhante que há em ti! Uma gaja não é mais que um pedaço de carne pendurada num matadouro da qual aprecias as formas, a qualidade da carne, avalias a vontade que te dá de a comer, isto tudo antes de fazeres o esforço de pagar (sim, porque por muito que um gajo não se dê conta, paga sempre; pode ser mais ou menos consciente, pode custar muito ou pouco... mas paga) para comer aquilo. E se te babas da primeira vez que olhas para a carcaça podes até chamar-lhe “amor á primeira vista” (ou uma “rebarba” monumental), o resto é secundário. Se a gaja é inteligente ou uma burra de merda, se a gaja é divertida ou uma entronhada de merda, se a gaja é um doce de criatura ou uma cabra de merda, no fim de contas o que é que isso interessa? É carne para foder e é… Não é que isto não fizesse sentido (fazia e muito), mas nem assim consegui; acho que não tenho espaço na minha existência para mais ninguém além de mim. Dou-me demasiado trabalho e canso-me demasiado comigo para ter energia, tempo, dedicação, atenção, carinho, afecto,… por mais alguém para além de mim; e nem assim consigo gostar muito de mim.
E isso é mais outra coisa que me fode a cabeça; se eu não consigo gostar de mim, se não me acho grande coisa como pessoa (eu, que me conheço melhor que qualquer outro ser humano), como é que pode existir alguém neste planeta que goste mais de mim que eu, ou pelo menos o suficiente para suportar conviver comigo de livre vontade, sem constrangimentos ou por qualquer tipo de obrigação? E como a imagem que tenho de uma “ralação” é a de um gajo amarrado a um poste, a ser chicoteado e retalhado enquanto lhe arde uma fogueira debaixo dos pés (dito assim até parece agradável), tento evitar que isso aconteça. Não é que eu não seja simpático para as fêmeas ou nada disso, é só que tenho pavor a relações e isso percebe-se e as gajas retraem-se e eu agradeço.
Se vivesse numa gruta era um eremita, assim não sei mesmo o que me chamar. Não é bem misantropo, porque embora a espécie humana me enoje bastante, não é o suficiente para evitar por completo o contacto com outros seres humanos. E também, eu gosto de algumas pessoas, mas acho que gosto delas pelo intelecto, pelo exemplo que são para mim, pela atitude, enfim, por serem quem são e por me atraírem. E algumas dessas pessoas até são gajas, mas não há nada de sexual nessa atracção, é apenas gostar de absorver conhecimento, de partilhar experiências diferentes, gostar de me divertir a conversar, de fazer coisas diferentes, de comunicar e interagir sem qualquer plano físico envolvido na coisa. E isso leva-me a não querer ter relações afectivas para além da amizade. Por exemplo, estes gajos aqui na oficina até são uns gajos porreiros mas não me juntava com nenhum deles (e o facto de me servir do calendário da Miss Tremoços ’75 para abrilhantar as minhas sessões de “bilhar de bolso” não quer dizer nada). Tá bem que são gajos e eu não gosto de cagar para dentro, mas mesmo que fossem gajas isso não iria fazer diferença nenhuma, a convivência mata a relação, mata o “amor”; se vives com uma pessoa todos os dias, vai chegar uma altura em que deixas de evoluir, deixas de ter algo para dar, porque já deste tudo e vais também chegar á conclusão que, por muito atraente e interessante que ela seja, já não há ali mais nada para ti e (à força de nos martelarem a cabeça com esta ideia de relações duradouras, de compromissos vitalícios) depois vem a tortura de arranjar uma boa desculpa para a separação e isso normalmente é algo que vai magoar um dos dois (ou os dois) e eu para me magoar prefiro dar um pontapé numa pedra ou uma martelada numa unha.
Sexo... bem, parece que até é bom e tal… ainda experimentei uma vez ou duas, mas aquilo não é para mim; ou sou um porco egoísta que não pensa em mais nada senão no próprio prazer ou sou o gajo frustrado que tenta mas não consegue dar prazer á parceira; pode ter corrido bem uma vez por outra mas foi pura obra do acaso (tipo roleta russa) e na análise estatística da coisa não vale os inúmeros desgostos e frustrações para uma vez ou duas na vida em que pode até ser essa coisa agradável. A atitude honesta seria pagar a alguém profissional para me prestarem o serviço, mas a ideia repugna-me - recuso-me a pagar por uma coisa que deveria ser consensual e não comercial. Não condeno ninguém por escolher a profissão que quiser, não condeno ninguém por pagar pelo que quiser, mas não sou cliente desse tipo de serviços e não preciso assim tanto de contacto físico com outros seres humanos; para isso ia aprender danças de salão.
Agora, ando é farto de aturar as bocas destes cabrões, mas quanto a isso não há nada a fazer; também não vou arranjar aí uma badalhoca qualquer num canto só para aparecer aqui com ela para lhes calar a boca.

Alcino Lopes

Devia haver formação e campanhas para acabar com a segunda feira (ao menos hoje não comecei com caralhadas; não é que não me apeteça, mas fiz um esforço…); não o dia, mas o conceito. O conceito de segunda feira é deprimente e estraga um dia de trabalho inteiro. É esta a minha mensagem para o país, para aumentar a produtividade em 20%; acabem com a ideia de 2ª feira, tornem este dia de merda num dia atraente para trabalhar! Se isso implica obrigar toda a gente a tomar Prozac ao pequeno-almoço de 2ª feira então faça-se uma lei para isso! Hei, o investimento compensa! Pensem bem, Prozac em vez de café... ou Prozac e café; porque não? Energia e alegria em vez de um dia de merda, com gente rabugenta, mal-encarada, que se chateia pelos dois motivos mais óbvios (por tudo e por nada).
Porque é que se criou a imagem de 2ª feira como o inferno do trabalhador? Continuo a dizer, não é o dia, é o conceito!
Em alternativa acabem com essa regra de que andar bêbado (e, por conseguinte, trabalhar bêbado) é uma atitude socialmente reprovável; já que um gajo tem uma produtividade de merda e tem… ao menos que se possa trabalhar mal por um motivo decente. Porque para um gajo conseguir suportar certas coisas (bem... é mais certas pessoas) devia ser permitido poder-se trabalhar completamente embriagado; também não vejo outra forma de suportar certas atitudes, certas pessoas, de conseguir desempenhar certas tarefas. Ainda vou tentando esquecer as violências da semana (das semanas, dos meses) com uns copos à sexta e sábado à noite... bem... é mais andar perdido de bêbado durante dois dias, mas chega a domingo e lá tenho de parar com aquilo porque depois é segunda-feira e tenho de trabalhar outra vez e trabalhar de ressaca não ajuda nada o desempenho profissional das funções que me foram confiadas (não que isso me importe muito).
Não aprendo, é o que é; trabalhei quase 8 anos com um bêbado e nunca vi o gajo ter uma ressaca (e o tipo estava bêbado todos os dias... todo o dia). O gajo seguia religiosamente o lema “evite a ressaca, mantenha-se bêbado” e funcionava na perfeição para ele; só fazia merda no trabalho, mas era feliz... pelo menos parecia ser bem mais feliz que eu. Um gajo é que não se convence que não faz diferença nenhuma andar bêbado ou sóbrio e, quando chega a segunda feira, deixa de beber para... bom... não percebo bem para quê, senão para depois levar com um banho de realidade que só dá vontade de virar costas e ir beber uns copos valentes.
Ao menos aqui na oficina essa merda não faz diferença nenhuma, estes gajos trabalham de qualquer maneira; heranças do velho Manel... sempre todo fodido aquele cabrão. Também, que diferença faz isso? Os carros andam na mesma; e se faltar alguma peça e se o carro se foder todo porque alguém se esqueceu de apertar um parafuso ou se esqueceu que um motor tem de ter uma cambota (o que quer que essa merda seja) lá está a oficina para resolver o problema e lá está dinheiro a entrar para pagar as despesas deste antro (que não são poucas, eu bem vejo) e os vícios desta cambada de ineptos que andam aqui a fingir que arranjam carros.
Ainda haveria uma terceira solução: um gajo poder trabalhar de metralhadora (ou caçadeira de canos serrados, ou bazuka, ou...). Isso é que era, resolviam-se uma carrada de problemas e acabava-se com uma carrada ainda maior de filhos da puta que só servem para moer os cornos a um gajo. O gajo está-te a moer a paciência? TRÁS! Tiro no meio dos cornos do gajo e depois o INEM (ou o cangalheiro) que resolva o resto. Mas parece que é ilegal o porte de armas de calibre de guerra ou de armas de caça para outros fins que não a guerra ou a caça. Hei! Solução! Genial! Bastaria um gajo dizer que é a guerra á evasão fiscal, á quebra de receitas do estado, é a caça aos vigaristas que fogem aos impostos; lá está - guerra, caça, armas de fogo... Haverá sempre quem diga que essa vulgarização do uso de armas de fogo potenciará que se verifiquem situações de abuso mas também não é nada que não se resolva com um tiro nos cornos do gajo que diga isso.

Tó Manel

Foda-se, que férias de merda. Férias, meia dúzia de dias, ainda por cima no Algarve ou o caralho. Como eu odeio aquela merda, não há um filho da puta de um sítio de jeito para ir à noite, não se ouve música de jeito em lado nenhum, está tudo a rebentar pelas costuras, tudo cheio de bimbos do caralho a andar de chinelos e camisolas de alças na marginal da Quarteira até à meia-noite. Sim, que a essa hora os putos ranhosos têm que ir para a cama. Para no dia seguinte arrumarem a lancheira, irem para a praia até à hora em que o Sol faz mal à pele, voltar ao apartamento ranhoso que alugaram com o guito que pediram à Cofidis para almoçar, voltar para a praia depois da hora em que o Sol faz mal à pele, voltar ao apartamento ranhoso, jantar, e ir passear na marginal da Quarteira até à meia-noite. Foda-se, que tristeza. Esta gente faz, de férias, uma vida ainda mais triste que a que faz o raio do ano inteiro. A gaja a arrumar as merdas e a tomar conta dos putos, o gajo a passar-se com a gaja e com os putos, que não se calam enquanto ele tenta topar as gajas que estão a ajeitar o bikini à volta deles na praia. Debaixo do guarda-Sol, que tiveram que carregar, e que tiveram que espetar na areia. Primeiro não espeta, depois tomba com o vento, depois o caralho do puto põe-se a escavar a areia mesmo ao lado daquilo, depois sabe-se lá mais o quê. Entretanto, o gajo berra com os putos, berra com a gaja, e de quarto em quarto de hora lá está a puta da família toda agarrada às sandes que trazem na lancheira, enquanto o gajo tenta micar as camones em topless. E andam mais stressados do que no resto do ano, porque arranjam maneira de ter uma rotina, que não é a deles, e que por isso lhes fode a cabeça completamente. E lá vai o puto outra vez aos berros a correr até à água, a mandar areia pra cima do que quer que seja que esteja no caminho.
Este ano, ainda por cima, até a reportagem na praia um gajo teve direito. Que a televisão está lá também, sim senhor. Onde estiver esta sociedadezinha de merda em peso, lá está a televisão. Parecem moscas à volta da merda, com a câmara. Lá vai tudo feito parvo, aquele bacano dos 15 minutos de fama devia ter razão. É uma merda que me passa tão ao lado que não consigo, mesmo, compreender esta gente. Odeio esta merda de uma maneira. Ainda por cima agora, que sempre que acontece qualquer coisa (e pelos vistos estar gente de férias no Algarve é qualquer coisa), lá está, encena-se um directo, para a televisão. E quando acontece alguma coisa, o que interessa é a opinião do Zé que estava por ali a passar mais ou menos à hora em que aconteceu qualquer coisa. É por estas e por outras que esta merda deste mundo é o que é, dão as notícias da foda em grande destaque, mantém o pessoal interessado pelas putas das telenovelas que fazem de tudo durante não sei quanto tempo, até já temos futebol outra vez, isto é uma alegria. Entretanto os filhos da puta que mandam nesta merda continuam a fazer o que lhes apetece, porque têm quem mantenha o povinho estúpido e entretido. E convencido que o que realmente interessa do que acontece no mundo é a opinião da D. Gertrudes sobre o assalto à tabacaria da esquina. Come chocolates pequena, come chocolates. Que enquanto comes chocolates não vês que te estão a foder. E nem percebem que tudo isto é montado, tudo isto é feito de propósito. E que o que se sabe, sabe-se porque se quer que se saiba, porque alguém quer que se saiba, porque até deu jeito a alguém, porque alguém ganhou alguma coisa com isso. Porque até podes dizer que se passou isto, para não dizeres que se passou aquilo. E em vez de dizerem e explicarem as merdas como deve ser, explicam as cenas para atrasados mentais, e entrevistam o Zé que vai a passar, para perguntar se acha que a subida das taxas de juros vai ser boa ou má. Claro que vai ser má, o gajo tinha que ter a casa, o carro, e as férias no Algarve. E se perguntassem a um gajo qualquer que percebesse de economia, ninguém ia perceber nada e não, e mudavam para a TVI porque estavam a dar os novos desenvolvimentos da miúda que desapareceu, então para quê tentar? Esta merda é outra que tal, o que é que interessa para o mundo esta puta desta novela toda? Iá, é fodido, a miúda desapareceu, e? Esta gentinha toda anda com o coração nas mãos pela menina. O caralho! Esta gente tem uma telenovela melhor que as outras, porque não sabe mesmo como vai acabar. Porque é real, porque se já há quem chore com as outras, esta então é uma maravilha. E gentinha vê esta merda religiosamente porquê? Porque se preocupam mesmo com a miúda? Claro que não, porque têm a curiosidade que têm pelo que a vizinha está a fazer em casa, pelo que o primo do Jaquim andou a fazer com a filha da Guilhermina. E os maiores filhos da puta no meio disto tudo são os jornalistas, que sabem perfeitamente o que estão a fazer, que estão a fazer um circo desta merda toda, que dizem as frases feitas e os clichés do costume, que as pessoinhas choram, e que eles continuam a ter audiências nos telejornais. As pessoas são simplesmente estúpidas, estes filhos da puta são uns abutres. Porque eu sei que a esmagadora maioria deles pensa o mesmo que eu desta merda, que não são atrasados mentais, e que têm perfeita consciência do que estão a fazer. Então o quanto esta merda está ligada ao poder nem imagino. Nem quero imaginar, sequer, o quanto tudo isto não é montado para manter esta gentinha entretida e quieta, sem se revoltar, sem fazer a revolução que isto precisa.
Eu, por mim, caguei para a revolução. O Mike tinha uma guitarra velha que já não precisava e fiquei-lhe com ela. Vou é ver se aprendo a tocar, enquanto o mundo se vai enterrando até ao pescoço na areia das praias do Algarve… se acharem um espaço livre grande o suficiente para caber lá alguém.

Telefonia

"Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can't you understand
Oh my little girl
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm
Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm"

Alcino Lopes

Estou anestesiado. Isto é a grande vida, aquilo por que toda a gente sonha e eu, eu não sinto nada. Talvez tenha sido das ganzas de ontem (ou talvez seja apenas eu), mas estou insensível a tudo. Rebobino, estou no sul de Espanha, vou assistir a um festival de música em mais um bocado das minhas férias deste ano, para já o festival ainda não começou, está um sol do caralhão e isto é um sossego. Ainda estou um pouco cansado e talvez seja isso que me deixa neste estado e a falar sozinho (ou talvez, de novo, seja apenas eu). Estou um bocado ansioso para que a coisa comece e até enchi um dos iPod com coisas dos gajos que vão tocar (cortesia do Tó Manel e afins) e estou com muita vontade de ver alguns ao vivo. Mas para já não consigo sentir nada, nem alívio, nem cansaço, nada. E a ansiedade que falo é, mesmo assim uma coisa esbatida, fico com a impressão que se fosse embora agora não ia fazer diferença nenhuma, nem pelo dinheiro que gastei para estar aqui e isto é significativo vindo de um agarrado (ao dinheiro) como eu.
Deixei a Oficina para trás e o caralho dos papéis e o Tó Manel a foder-me a cabeça com o IVA-não-sei-do-quê-das-sucatas-e-da-puta-que-o-pariu, deixei o serviço para trás, cheio de emigrantes estúpidos que acham que o estado lhes deve favores, mesmo quando eles se recusam a fazer o que quer que seja pelo estado, não querem pagar impostos porque dizem que não vivem cá, mas aposto que têm idêntica conversa no estrangeiro, onde dizem que são portugueses e não têm de pagar lá nada. Gajos mal-educados, arrogantes, estúpidos, surdos como a puta que os pariu a quem tem de se dizer a mesma coisa 3 vezes. Foda-se, que desespero!
E o cabrão do Tó Manel sempre insuportável estes dias (e ainda ando fodido com o gajo por não me ter arranjado um biscate na casa da Madame Filipa - é que, tanto quanto sei, aquilo está pior que a oficina e afinal o dono também era o Manel - tinha jeito para o negócio o velho).
É bom para o gajo aprender o que a vida custa, não é sempre coçar os tomates, fumar brocas, comer gajas e ouvir música enquanto se vai disfarçando que se arranja carros. Põe-me a fazer horas extraordinárias na oficina de volta de caixas empoeiradas, papéis amarrotados, cheios de nódoas de sandes de chouriço e vomitado de cerveja e whisky, facturas de merdas que não lembra a ninguém e que não têm nada a ver com a oficina, mas que o Manel guardou porque “é preciso despesas, e sobretudo é preciso não pagar nem um tostão para essas sanguessugas do fisco”.
Cabrão, andou a comprar peças nas sucatas e dos carros gamados e depois arranja facturas de cimento, tijolos, contraceptivos, roupa de marca e merdas assim. Bom, é Portugal e de certeza que o fisco se está a cagar para isto, eu sei que estou. Também, que se foda! O gajo é que fez a merda, mas está morto e com toda a certeza se está neste momento a cagar para as consequências (bem não faço ideia, não acredito nessas merdas de vida para além da morte, mas tenho a certeza que não lhe faz diferença nenhuma no estado em que ele está).
O Tó Manel que se lixe também, agora não tem para onde se virar quando quer perguntar onde é que a porcaria dos parafusos encaixam. É para aprender, quando devia estar a prestar atenção ao Manel andava na boa vida, ele era brocas, comer a sua gaja, foder carros uns atrás dos outros contra postes da EDP, bocas-de-incêndio e afins (dizia ele que estava aprender para tirar a licença de piloto profissional, não lhe bastava ser azelha e ainda por cima convencido…). Agora tem de se desenrascar. Se não for mais nada contribui para o avanço da tecnologia dos híbridos – uma mistura entre um Panda 4X4 e um 205 GTI é um híbrido (acho eu…), e pelo aspecto da coisa era isso que o gajo andava a fazer da última vez que pus os pés na oficina para fazer a revisão do carro.
Que se desunhe durante este mês, férias são férias e eu quero esquecer quem sou por um bocado.

Telefonia

"Today I passed you on the street
And my heart fell at your feet
I can’t help it if I’m still in love with you

Somebody else was by your side
And she looked so satisfied
I can’t help it if I’m still in love with you


A picture from the past came slowly stealing
As I brushed your arm and stood so close to you
Suddenly I get that old time feeling
I can’t help it if I’m still in love with you


It’s hard to know another’s lips have kissed you
And held you just the way I used to do
Heaven only knows how much I miss you
I can’t help it if I’m still in love with you."

Telefonia

Bet she's delighted when she sees him
Pulling in and giving her the eye
Because she must be fucking freezing
Scantily clad beneath the clear night sky...

Tó Manel

Bem, apesar dos stresses iniciais acho que as coisas se estão a compor. Afinal, se alguém fez asneira foi o Manel, e esse já cá não esteve para contar a história. E, devagarinho, as coisas voltam mais ou menos ao seu lugar, mesmo que nada fique como era antes. Mas as surpresas do Manel não acabaram ainda, e se a Marilene começou logo com coisas da herança, nem ela sabia o que a esperava. Porque o interesse do Manel na casa da Madame Filipa não era só diversão. Não senhor, o cabrão do velho era dono de metade daquela cena, e recebia as comissõezinhas dele por fora, se recebia. E não deve ser pouco, apesar dos tempos dourados destas cenas já terem passado. Que agora os betos de merda, com os seus Audis A3, e os seus fatinhos da Decénio curtem ir ao Champanhe, e ao Passerele e a essas merdas, ver brazucas e gajas de Leste a dançar. Não entram em buracos daqueles, aquilo é só velhos babados aqui do bairro, uma decadência do caralho, é o que é. Aqueles sofás a dizer com os cortinados de veludo vermelho, os móveis dourados, os abat-jours, tudo mais que gasto, coçado, cheiro de nódoas. Aquele luxo todo já passou o decadente há muito tempo. Isso e as gajas que lá trabalham. Grandes estrelas da revista passaram por lá, dizia o Manel. Pois passaram, uns bons 30 anos depois dos tempos áureos do Parque Mayer, quando o cu já era do tamanho de um pequeno país. E quando andar a dizer piadas de merda em trajes de plumas e lantejoulas já não pagava as contas de casa. E agora herdamos esta merda também. Nem sei o que é que vamos fazer àquilo, mas não vai ser a Marilene que vai para lá, que eu não deixo. O bikini com que está já não se usa desde o fim dos anos 70, mas a minha mana numa daquelas paredes ao lado do Lago dos Cisnes é que não. Por muito que agora ande com merdas por causa das partilhas, não lhe ia fazer isso. Mas também não vou ser eu, e agora o que é que faço? A Filipa está velha e acabada, mas é tudo o que tem e não consegue andar com aquilo sozinha. E é pena as miúdas… miúdas… bem, adiante, que lá trabalham estarem todas com artroses e espandilose e o caralho que as foda, porque senão ia fazer uma cena do caraças. Punha-as aqui a lavar os carros, de T-Shirt e bikini, com os clientes dentro do carros, e ganhava-se na publicidade à oficina e na publicidade ao antro. Mas assim, nem para fazerem as limpezas disto de fato-macaco servem. Será assim tão difícil arranjar brazucas boas? Não me parece. Gajo bom para isso era o Ibeson, é isso! O fatinho branco dele, com uma camisola de alças, havaianas e um chapéuzinho de palha. E sempre pode trazer as não sei quantas irmãs que tem lá no Mucugê, ou o raio que o parta, para aqui. Lá pinta de brazuca chulo tem o gajo. Ficava aqui durante o dia a fazer o que quer que seja que ele faz por aqui, e à noite mudava para a outra identidade. E podia ser que descobrisse a verdadeira vocação dele, que a mecânica não é de certeza. Até o mandava embora, mas devo ter herdado o coração de manteiga do Manel, eu sei que o desgraçado não ia sobreviver sem a Marilene. E não o quero ver por aí, perdido pelos cantos, ainda por cima se aceitar ajudar a tomar conta da casa da Madame Filipa ainda se tentava e se perdia como o Manel se perdeu. Apesar de também não andar muito contente com a atitude da Marilene, sei que ela gosta dele e não lhe ia conseguir fazer uma desfeita destas. Por muito que, neste momento, me apeteça.

Marilene: a menina do calendário

Snif... Snif... Ai que o meu coraçãozinho de papel não aguenta! Primeiro, a morte do meu querido Paizinho (que não deve estar no Céu, não senhor, mas por quem eu vou rezar muito, para que um dia se junte à minha querida mãezinha, que nosso Senhor a guarde até esse dia! E ao meu querido pai, que a mãezinha há-de querer dizer-lhe das boas!). Ainda por cima, o preto não combina nada com as minhas bonitas folhas e a minha cor de pele (como já estamos em Julho, o Senhor Baptista, que era um fotógrafo às direitas, sem segundas intenções, como me explicou, fez um truque lá com o aparelho dele, para eu ficar com um ar mais saudável, assim com a pele mais reluzente!). E, agora, tenho de dividir a herança com o Tó Manel! Isto já é demais! Que as coisas nunca tenham resultado entre nós, não interessa! Eu tinha de arranjar uma distracção para os meus dias, para além de ver as horas passar, já que o Senhor Manel nunca quis pôr aqui a tv e as novelas da telefonia já não são como antes... E, então, imaginava, na minha pobre cabecinha de papel, uma história romântica, daquelas com uma praia de fundo (pobre Caparica! Snif... snif... nem me quero lembrar da Caparica!), em que eu e o Tó Manel iríamos, um dia, ser felizes para sempre, a correr junto ao pôr do sol, com as minhas folhas ao vento... Elas fazem um barulho tão giro, quando o vento lhes bate assim devagarinho, ao fim da tarde... Com a galdéria, nunca me preocupei muito. É só fazê-la pensar que manda aqui, que não chateia ninguém. A pobrezinha nem sabe o que é dinheiro de papel. Já eu, entendo-me bem com ele. É cá da família. Um pouco mais resistente e as cores não são tão bonitas, mas eu não me importo. Damo-nos bem e isso é o mais importante numa família! E o pior, é que o Tó Manel agora é mesmo capaz de pôr o Ibeson a mexer (anda sempre a dizer que ele não faz nada, a não ser recitar poesia) e colocar o Senhor Alcino a tratar da contabilidade. Ai, que pesadelo! Como é que eu vou sobreviver, se o Ibeson se for embora e me deixar aqui à mercê das mãos gordas do Senhor Alcino? Ai, que nem quero pensar nisso! Tenho de arranjar um plano! Tenho de arranjar um plano!

Telefonia

He took his sister from his head, and painted her on the sheets.
Then he rolled her up in grass and trees and they kissed 'till they were dead.

This ain't no holiday, oh no...

Tó Manel

Chega de música! Não tenho feito mais nada nos últimos dias, a não ser pôr os phones nos ouvidos e cagar para o mundo. Porque o mundo não é fácil, e desta vez é que me fodeu a cabeça, mas já não aguentava mais sem contar esta merda a ninguém. E assim prefiro que o mundo saiba, apesar de tudo quanto o Manel me disse, e me ter pedido para não contar a ninguém. "Ninguém, ouviste puto?", foda-se, ouvi Manel, mas não se pode pedir isso a um gajo, viver com estes segredos, e logo a mim... que sou o gajo que nunca consegue ficar calado. Eu avisei-o, ele lá disse "Faz o que quiseres", e eu fiz, claro. Um gajo é livre para fazer o que quer, o que vale é essa merda. Se ele não tivesse dito "Ok, podes contar, tu é que sabes", eu ia ter que aguentar, mas nem lhe dei essa hipótese. E foram as últimas merdas que ele me disse, a última vez que o vi. Nem tive tempo de recuperar da cena, não tive tempo de viver a cena durante tempo nenhum, na prática, a cena nem sequer chegou a existir. Porque no momento em que ele começou a frase por filho, e vi o Manel a chorar, pela primeira vez, vi logo o que é que ele queria dizer. Que ele não conseguia manter as calças vestidas, toda a gente já sabia, agora, que a minha mãe também não... E depois foi hora de me vir embora, e basicamente tive pai, a sério, durante uns 5 minutos, junto à cama dele no hospital. Por isso o interesse em mim, por isso a confiança, por isso o orgulho sempre que eu fazia as merdas todas bem feitas. O gajo andava a educar-me pra continuar à frente da oficina, ele não queria mesmo mais ninguém pra pegar nisso. Agora há uma série de coisas que fazem sentido. O que não faz sentido é como é que alguém é capaz de viver com um segredo daqueles durante estes anos todos. Comigo não durou mais que um mês. Porque viver uma vida destas, onde não podemos exprimir os nossos verdadeiros sentimentos pelas pessoas, por muito que isso, nalgum ponto, magoe quem está à nossa volta, faz-me uma confusão do caralho. Eu não aguento isso, o cérebro começa a entrar no red line, sem um minuto de descanso, de folga. É viver uma vida inteira de sobressaltos e angústias. Por isso ganhei coragem, eu próprio, a coragem que o Manel nunca teve, e que o impediu sempre de fazer isto que eu fiz. Ele já não ia sofrer com isto e não, está morto e enterrado, e assim os que ficam sabem com o que contam. Não foi fácil, não sabia como ia ser, não sabia como iam reagir a minha cota, o meu cota, a mulher do Manel. A mulher do Manel eu sabia que ia cagar, como fazia prás outras putices todas dele. Tal como ele cagava para a filha dele ter nascido 7 meses depois de o gajo voltar do ultramar, e de lá ter estado 1 ano. Custou-me muito, tive que pensar muito como o ia fazer, se o ia fazer, mas viver com segredos é uma coisa que não aguento. E este tinha tudo para arrasar com uma série de merdas à volta. Mas ganhei coragem, e mandei a bomba. Estava tudo a desabar à minha volta, e já nem me aguentava com as merdas todas com que tinha que estar a aguentar, não ia aguentar com mais esta. E pum! Lá foi. E depois de o fazeres não há marcha atrás, nem travão de mão. Esquece. Não tens como fugir destas merdas. Claro que tive medo, muito mesmo. E se fodo tudo, quem é que nunca mais me quer ver à frente, quem é que nunca mais quer ver quem à frente. Sem culpa, porque infelizmente estas merdas não se controlam, não havia nada que eu pudesse fazer contra isto. A verdade estava lá, quieta, grande comó caralho, a destruir-me a cabeça por dentro.

Mas as cenas nunca são como pensas que vão ser, pensas que controlas a coisa e não controlas, esperas coisas que não são assim. E ninguém ficou contente, ninguém, e claro, não eu, que fiquei no meio daquilo tudo, a ver as cenas a cair à minha volta. Eu devia saber, eu devia ter aprendido com o Manel, devia ter ficado calado. Mas não, será que tenho culpa? Do segredo em primeiro lugar, e agora de não ser capaz de o guardar? "O Manel era o meu pai". Bem, esta nem nas estúpidas das novelas que a cota vê. As merdas nunca são assim na realidade, a cota devia saber dissso. Se calhar podia ter aprendido alguma coisa se visse mais novelas e ouvisse menos música. E só o gajo é que sabia, nem a minha cota, ele é que foi fazer as análises, quando as fui fazer para entrar para a oficina, bem estranhei aquela cena toda. Ele sabia tudo desde essa altura. E ficou calado, foi o que fez de melhor, pode continuar a viver a vida dele, a gostar de mim como um filho, quase, e a tratar-me como sempre me tratou. Não precisou de mudar nada, a diferença é essa. Bem, mas a minha estupidez continua a não ter limites, deitar isto tudo cá para fora, da maneira que fiz, ia acabar por magoar alguém, aí a minha estupidez veio toda ao de cima. E em vez de descarregar este cancro cá de dentro, arranquei-o à martelada, e o que ficou foi o buraco, vazio, e a sangrar por todos os lados.

Definitivamente, não era nada disto que eu esperava. E continuou a dar-se bem com o outro pessoal à volta. A mulher dele tudo bem já sabia da... espera lá... a Marilene... é minha irmã... Não, esta agora não, a Marilene é minha irmã. Por isso é que ele me disse sempre, para nem sonhar com ela. Por isso é que me ameaçou na altura em que andámos, e fez da minha vida um inferno, e lhe disse tudo o que disse sobre mim. Agora percebo, ela... Tudo o que sentia por ela nessa altura... E agora continuava a sentir, mas foi essa a única, única coisa que o Manel me fez jurar desde o primeiro momento, que nem sonhava com ela. Por isso é que eu me afastei dela, por isso é que a ignorava, para ela se desinteressar, e para eu próprio me defender e me afastar. Se nos habituarmos a tratar mal alguém de quem gostamos, começamos a viver aquela cena a sério e desinteressamo-nos também. E a verdade é que ter andado a comer as gajas, e os gajos, que andei a comer quando estivémos mais próximos, não teve nada a ver com isto. Era só eu a ser eu, mais nada. Agora... eu a pensar que o Manel estava só a ser um cota normal, a proteger a sua querida criança, estava a proteger-nos a nós. E este sonho com que eu vivia, que com a morte dele estava só à espera da mínima oportunidade para me reaproximar, acabou de vez. Estas esperanças vão sendo o que nos faz continuar. Agora, o sonho acabou, mas ganhei uma irmã, e agora posso tratá-la como sempre quis, posso voltar a ser simpático com ela, escuso de fingir, e de a tratar mal. E nunca mais ninguém vai ter que estar com merdas quando eu estiver com ela. Ganhei uma irmã, e posso continuar a minha vida, não sei bem como, mas posso continuar, agora não há nada a fazer. Nem posso esperar por chegar à oficina e contar-lhe esta merda toda. Ela nem faz ideia do que aí vem, será que este dia está marcado nas folhas do calendário dela?

Telefonia

I feel coarse and strain interrupt my mind again.
I am being clear, I'm sad to say I'm living here.

I do it all the time. I do it all the time .

Single fear, clearly defined I'm wasting time again .
Slowly coarse and strain go, counting fear again no.
Staring eye to eye, then slowly me again.
Slowly, slowly...

Telefonia

I woke up early, couldn't go back to sleep, 'cause I had been thinking of where it all would lead.
So I made you wake up, said, "Let's take a walk,I wanna hold your hand, we don't have to talk"

There's a big day coming, about a mile away. There's a big day coming, I can hardly wait...

Tó Manel

Este fim-de-semana o concerto correu mesmo nice, apesar de ter andado a bulir na oficina como um animal, outra vez. A... mmm... morte... do Manel e rearranjar as merdas todas dão um trabalhão do caralho, mas safei-me no Sábado à noite pelo menos. Tocar em festas no Barreiro é sempre uma cena fixe, os gajos são bacanos e a malta por lá já começa a conhecer a nossa música. Ainda por cima, com os problemas sociais daquele lado as nossas ideias de intervenção caem que nem ginjas, mesmo que metade daqueles caralhos não saibam o que é anarquia (vão de skins a comunas, mas coitados, vivem naquele buraco de merda, desde o tempo do Estaline e do Hitler que não entra nada), muito menos a vanguarda. Agora, os Anarquia de Vanguarda começam a ser culto naqueles lados, não somos os Mão Morta, mas lá chegaremos... um dia...
E ir tocar à margem Sul fazem dum gajo um sonhador. Quer dizer, nem por isso. Mas aquela miúda na fila da frente, a cantar as nossas músicas de uma ponta à outra, isso é que fez deste fim-de-semana um grande fim-de-semana. E falar com ela. E ir com ela para o quarto. E ficarmos por ali a fumar umas brocas, a falar de música, nos nossos projectos de intervenção, das viagens dela. Uma cena do caraças, não houve sexo, não houve nada, só um abraço de despedida. De mim! Foda-se, uma besta como eu, que não sabe falar sem dizer 50 caralhadas por frase, que não sabe mais que 3 acordes e arranjar carros. Ainda por cima, sem ela topar, fiquei-lhe com o diário. Não o devia ter feito, porque agora entrei dentro da cabeça dela e estou a ficar fodido. Fodido no bom sentido, no sentido de em vez de sinapses (só sei o que são graças aos Guided By Voices) os meus neurónios andarem a fazer uma orgia uns com os outros. No sentido de me estar a ligar mentalmente tanto quanto não me liguei fisicamente com a miúda. Sinto que entrei dentro da cabeça dela, como no filme que o Alcino me falou noutro dia, de uns bacanos que entram na cabeça de um actor qualquer. Agora não a consigo apagar, ler os segredos dela foi melhor do que se tivéssemos passado a noite a foder. Espero que ela não fique a pensar que não gosto de gajas, apesar de termos falado abertamente das nossas curtes nesse aspecto, ou que não a curto, não, a miúda é linda. Mas agora entrei num outro nível com ela. Se acontecer é nice, mas se não fico feliz por ela existir, basta isso. Agora... há o problema de eu ser uma besta. Não percebo metade das merdas... espera lá... merdas? bem, adiante... cenas que ela escreveu, mas parecem poesia. Da que eu gostava de escrever, encantou-me de uma maneira a maneira como escreve (esta merda deve ser uma figura de estilo, só pode) que me encantei de uma maneira que não me encantava há muito (rói-te Camões). E fala francês, provavelmente explicava-me o que querem dizer as letras das músicas que o Alcino põe a tocar na grafonola do escritório do Manel quando vem tratar da papelada. Voltando à besta, tenho pena de não saber dizer as merdas de outra maneira, não estudei, pois não, mas não era por aí. Não tinha livros em casa, não tinha cotas que falassem comigo como os dela de certeza falaram com ela, não tinha ninguém que funcionasse no meu comprimento de onda, para conversar. Tínhamos o contingente, mas era mais música, e mais revolução, e por isso mais animalidade. Agora gostava de ser um gajo sensível, educado, sei que tenho as ideias, mas pô-las no papel... tenho que admitir que não sei. Depois de ler o quer ela escreve num diário, que ninguém vai ler (fui o primeiro dela pelo menos nisso...), não consigo deixar de pensar na beleza com que as palavras lhe saem da mão para o papel, palavras perdidas por ali, talento que não parece deste mundo, da mesma maneira que não me faz sentido nenhum como é que um animal como eu lhe pode despertar o mínimo interesse. Não ter o dom da palavra é só o início, há muito pior. Não é que eu não me curta, que não ache que, pró gajo que sou até me safo, que tenho ideias, e que tenho ideias com base no que penso das coisas, não porque sim, mas porque pensei bastante nas cenas e tenho os meus pontos a favor e contra.
Agora... tenho que estar consciente das minhas limitações, saber o meu lugar na cena, e saber que tenho falhas comó caralho. Todos temos, somos humanos, vivemos presos nesta sociedade de merda, escravos destes sistemas todos, mas de certeza que ela não. Parece que anda acima disso tudo, mesmo quando escreve sobre as angústias próprias de uma rapariga como ela, e a maneira fantástica como descreve a alegria fazem parecer que só fala do resto para não nos sentirmos ainda mais miseráveis. Bem, eu sinto-me miserável ao pé dela. Mas miserável de uma maneira fixe, porque admiro-a da maneira que ela me disse que me admirava também. E da mesma maneira que não percebo porquê, ela há-de ter as razões dela. Agora é arranjar maneira de entrar no diário dela. Bem, entrar outra vez, porque já lá está uma cena dum concerto, onde aparentemente eu estava demasiado fodido para conseguir dizer mais do que "aarrrrgggghhh" quando ela veio ter comigo.
Espero que não se importe com as bocas que lá escrevi quando lho devolver. Que quero devolver-lho, por isso é que fiquei com ele. Também, foi a lápis, pode sempre apagar e esquecer que Sábado à noite existiu. Eu não. E gostava de escrever sobre isso, mas não consigo, não da maneira que devia, mesmo que escreve vou ler o diário dela e rasgo tudo, porque me parece tão estúpido. Diários de gajas sempre achei que eram um cena estúpida e sem sentido, desabafos de adolescente sem o mínimo interesse pró que quer que fosse. Agora que um! E não sei escrever, e não quero uma cena estúpida sem sentido. Sei pensar, menos mau, mesmo que saia tudo atabalhoado, tudo ao monte, pensamentos sem grande nexo, coisas perdidas, frases que mudam de sentido a meio porque entretanto me perdi nos pensamentos. É como se não fosse eu a pensar, como se morasse um gajo na minha cabeça que me vai dizendo as coisas que penso. Melhor, que me fosse escrevendo as merdas em que tenho que pensar, alguém que não sendo eu se esforça por ser eu, por andar aqui escondido na minha cabeça a passar pensamentos que acabam por ser os meus. É uma cena marada, mas tenho esta ideia há uns tempos, que alguém mora na minha cabeça, e que eu não sou eu, mas se esse gajo não sou eu, então eu também não existo. Foda-se, tenho que deixar de fumar charros, esta merda já começa a parecer paranóica. Principalmente quando agora, além do gajo na minha cabeça, sinto que entrei para dentro do mundo de alguém. A blaue engel, como pediu que lhe chamasse (disse-me que é anjo azul em alemão - e que é um filme - isso lembra-me que tenho que começar a ir mais ao cinema).
Uma cena é certa, mesmo que tudo fique como está, o simples facto de saber que existe alguém assim já dá sentido à banda, à música, à arte, à minha vida. Saber que volta meia volta a vejo, que pensa como pensa, que sabe que eu existo, para mim chega. A parte física está a deixar de me interessar, conforme mergulho mais nas ideias, e conforme o filho da puta do trabalho que tenho tido me desperta, estranhamente, cada vez mais ideias, e vontadas, e maneiras de perceber o que se passa à volta, e outras maneiras de me ligar com as pessoas, bem mais difíceis, mas bem mais interessantes. E vou guardar esta merda toda na minha cabeça pequena e limitada, pode ser que um dia consiga que as cenas saiam cá para fora de uma maneira um bocadinho melhor. E com menos caralhadas.

Telefonia

"Quand j'étais gosse, haut comme trois pommes,
J'parlais bien fort pour être un homme
J'disais, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS
C'était l'début, c'était l'printemps
Mais quand j'ai eu mes 18 ans
J'ai dit, JE SAIS, ça y est, cette fois JE SAIS
Et aujourd'hui, les jours où je m'retourne
J'regarde la terre où j'ai quand même fait les 100 pas
Et je n'sais toujours pas comment elle tourne !
Vers 25 ans, j'savais tout : l'amour, les roses, la vie, les sous
Tiens oui l'amour ! J'en avais fait tout le tour !
Et malheureusement, comme les copains, j'avais pas mangé tout mon pain :
Au milieu de ma vie, j'ai encore appris.
C'que j'ai appris, ça tient en trois, quatre mots :
Le jour où quelqu'un vous aime, il fait très beau,
j'peux pas mieux dire, il fait très beau !
C'est encore ce qui m'étonne dans la vie,
Moi qui suis à l'automne de ma vie
On oublie tant de soirs de tristesse
Mais jamais un matin de tendresse !
Toute ma jeunesse, j'ai voulu dire JE SAIS
Seulement, plus je cherchais, et puis moins j' savais
Il y a 60 coups qui ont sonné à l'horloge
Je suis encore à ma fenêtre, je regarde, et j'm'interroge ?
Maintenant JE SAIS, JE SAIS QU'ON NE SAIT JAMAIS !
La vie, l'amour, l'argent, les amis et les roses
On ne sait jamais le bruit ni la couleur des choses

C'est tout c'que j'sais ! Mais ça, j'le SAIS!..."

Alcino Lopes

Mais um S. João, mais um bubadeirão (esta foi para rimar), um gajo não pode ir ao norte, onde quer que entra está de copo (ou garrafa) na mão. Voltei a consumir essa grande instituição nacional que é a "mine" (aquela garrafa pequenininha), sinais de fraqueza…
Esta coisa de palavras acabadas em “inho” mete-me nojo, cada vez que me chamavam Alcininho sentia-me diminuído na minha masculinidade, até que peguei na lupa e procurei por ela (a masculinidade) e, verificando que era mesmo pequenininha, deixei-me de coisas. Entretanto os anos passaram e cresci um bocado (nomeadamente para a frente e para os lados) e, embora ainda haja partes da minha anatomia que não acompanharam esse ritmo de crescimento, as pessoas lá deixaram de me chamar Alcininho (a não ser duas ou três fêmeas que tiveram conhecimento carnal da "borbulha" – que por acaso é a minha alcunha em certos círculos femininos mais restritos).
Mas também não é problema, compenso bem essa merda ao balcão do serviço, aí fodo toda a gente que me aparece pela frente (gajas, gajos, novos, velhos, brancos ou de qualquer outra cor, não sou um gajo que discrimine).
Entretanto o Tó Manel lá me lixou, andei eu estes anos todos a tentar não ser como todos os meus colegas e lá acabo como eles também. O Sr. Manel lá se fodeu. Enganou-me bem o gajo, eu a pensar que ele era um homem todo “Deus Pátria e Família” e afinal era um devasso do caralho que torrava o dinheiro que tinha em copos e nas putas da Madame Filipa, aposto que não disseram nada disso no funeral e que a patroa deve andar aí a dizer que o gajo era um santo e que nunca lhe faltou com nada e o resto das merdas que se diz de qualquer gajo que já quinou. O Tó Manel é que tem razão, esta merda de céu e inferno não faz mesmo sentido nenhum, porque um gajo pode ser em vida o maior filho da puta mas quando morre é sempre mais santo que o Ghandi (que podia ser um gajo porreiro mas não era católico…). Nunca percebi essa merda, afinal quem são os gajos que vão parar ao inferno? Cá para mim o Hitler está lá a sentir-se muito sozinho… É por essas e muitas parecidas que as noções de alma e vida para além da morte (pilares principais de qualquer religião) são teorias (porque disso não passam) estúpidas e, mais que isso, completamente desprovidas de prova científica da sua existência.
Mas ia eu a dizer que o Tó Manel lá me cravou para tratar da papelada da oficina. Eu bem lhe tentei dizer que tenho regime de exclusividade com o estado e não posso fazer essas merdas (já para não falar que já esqueci a maior parte do que aprendi de contabilidade), mas o gajo lá veio com o choradinho (mais um “inho”, esta merda hoje não me larga, foda-se!!!) que o Manel tinha deixado a papelada numa confusão do caralho, e que o gajo não tinha tempo para fazer tudo, que se eu não percebia daquilo quem é que ia perceber e mais não sei o quê e lá disse que sim ao gajo.
Está ali um bom broche para resolver, quando vi os caixotes de papelada até tive de me sentar para não cair para o lado. Agora estou para ver se o gajo me continua a apresentar a conta quando lá for com o carro.
Ah, e o gajo que não pense que aquela merda é de borla, porque eu nem para o estado trabalho de borla. Bom, deixa-me ir ver se compro uns livros de contabilidade para ver se me lembro o que raio é o débito e o crédito e o que caralho é um balancete. Aproveito e passo na sex shop que já rebentei com a Melanie -“ânus vibrante, vagina palpitante” – era o que dizia na embalagem mas aquilo comia pilhas e nem se mexia, não durou uma semana, vou reclamar daquela merda…

Telefonia

"Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends.
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?

Oh Lord, won’t you buy me a color TV ?
Dialing For Dollars is trying to find me.
I wait for delivery each day until three,
So oh Lord, won’t you buy me a color TV ?

Oh Lord, won’t you buy me a night on the town ?
I’m counting on you, Lord, please don’t let me down.
Prove that you love me and buy the next round,
Oh Lord, won’t you buy me a night on the town ?
..."

Ibeson Gudiear

Eu nem queria acreditá no terefonema... Seu Máneu morrê, assim dessi jeito é tão triste, eu até goistava do homi pá chúchú. Mi punha trabalhando como um iscravo, mas goistava di mim como um filho. Eh pá é melhó não falá nisso ainda vai vê o homi foi padêro lá pó Brásiu e eu sô filho do homi. Dêxa batê na madêra treis vezi.
Quando recebi o telefonema fique pasmado, o homi até tava ficando mió, ao que sei o tratamento era duro, mas notavam-se meiória, pelo meinos não tinha o negócio tão inchado. Mas porqui é qui ele decidiu fugi do hóspitá durante a noite e enfiar-se dentro da carreta duis morto? Devia tá pensando que aqueli negócio às 5h da manhã era a carrinha do padêro. Quis fugí aos tratamento dánoi-si.
Vou senti saudádi do velho, daqueli jeito rezinga, dormindo ali no escritório e deli mi atirá o desperdício na cara.Oh Tó, a cambota da Bedford do Zé Peixeiro já pronta onde ocê qué qui boti essi negócio?

Telefonia

...it's up to me now, turn on the bright lights.

Tó Manel

Ando preocupado com a perda do meu sentido de humor. Achava que era uma das coisas que me definia e preocupa-me poder estar a tornar-me numa pessoa amarga, que não esboça um sorriso, que se irrita por uma merda qualquer e que tudo lhe faz confusão. Que por não saber ser feliz (para mim isto é a mesma merda que ter sentido de humor) há-de foder o juízo a toda a gente à volta dela até estarem todos tão miseráveis como ela. Acho que os meus pensamentos andam demasiado fodidos, espero conseguir manter pelo menos o sarcasmo e a ironia, que são sempre úteis nestes casos. E sentido de humor é uma cena que não pode faltar agora, o Manel ainda deu um ar da sua graça, mas ar é coisa que o cabrão do velho não tem na graça, parece que desta é que morreu mesmo.
Acho que um gajo não deve deixar de se rir com esta merda, porque tudo isto, a vida, a morte, o que andamos praqui a fazer é tão absurdo que só levando a vida na desportiva é que um gajo se safa. E do Manel, ia-se safando tudo menos o caralho, precisamente. E lá desporto fazia ele, não havia miúda da casa da Filipa (miúda... bem... hoje aos 40 ainda há gajas que acham que estão na flor da idade ou o caralho, ainda por cima se apanham um puto como eu...) que ele não visse se estava apta para satisfazer todas as fantasias que a mulher dele até satisfazia, e que ele não quis por ela se ter transformado naquele monte de banhas. Agora fodeu-se à grande, e acabou. É uma cena do caralho isto, pensar que a oficina era o Manel, que sem ele nada desta merda ia fazer sentido. Mas faz, continua tudo na mesma, o mundo pula e avança e o caralho. Azar o do velho. Mas azar? Um gajo depois de morrer não tem azar, acabou, não está contente, mas também não está triste, não curte mas também não sofre. Tenho uma atitude marada para a morte, para a doença é mais ou menos a mesma merda, pareço um filho da puta insensível. Quer dizer, para os outros pareço insensível, isso não quer dizer que ignore a cena. Acho que a lamechice, e os lutos e essas cenas não fazem muito sentido, a preocupação, o ir ao cemitério. Segue em frente, man.
Agora, prefiro pensar e tirar conclusões sensatas das merdas do que entrar em histerias. OK, o pessoal morre, é fodido não voltar a estar com eles, mas tudo bem. O gajo vai fazer tijolo e vai, nem a cena dos cemitérios. Porque acho que quando o gajo morre, morreu, não é por ir ao sítio onde as minhocas o estão a transformar em estrume que penso mais ou menos na pessoa. O que fica é o resto, o que se aprendeu, as memórias, os exemplos que se devem seguir. E o Manel ensinou-me bué do que sei, não só de automóveis mas de uma série de outras merdas bem mais importantes. Outra merda que não curto nesta alturas é o pessoal depois de morrer passar a ser um santo do caralho. Era um bom marido, um amigo… era um filho da puta às vezes, estava-se a cagar prá mulher, andava nas putas, sei lá mais o quê. O problema é que, para a sociedade, todos temos que ser perfeitos, e não somos, nem lá perto. Então só se guarda o que interessa aos outros nestes casos. Que se foda isso, somos pessoas, com falhas, e isso é importante mesmo depois de lerparmos. Para a Humanidade, ficou a respeitável oficina de mecânica.
Por falar em oficina, está mais que visto quem é que vai ter que tomar conta disto. O brazuca está bem no meio dos khmer, a miss bikini pequenino à bolinhas amarelas vai ter que ajudar a gerir esta merda, mais não seja para ver a quantas andamos, já que dela não se vê grande coisa na foto (nos anos 70, quando o Manel andava a comer a mãe dela no avançado na Costa tinha sido um escândalo). Bem vais ter que aguentar com marcadorzinho vermelho nos dias de pagar as contas, love. E por falar em contas, o Alcino é que é gajo para me ajudar, contas pra fazer é coisa que não lhe falta lá na repartição. E com estas viagens ao Alaska e o caralho, espírito de sacrifício e vontade de se sujar um bocado não lhe hão-de faltar também. Cair num buraco por cair, mais vale este do que um fenda no gelo no meio de um glaciar a que não vês o fundo.

De início vai ser assim, a seguir é ver se consigo pôr a parte das reparações a trabalhar sozinha, e ficar eu com a gestão. Basicamente fazer a vida do Manel – com menos putas e mais Rock N’ Roll.

Alcino Lopes

Nunca estive á vontade naquela montanha. Mas também quem me mandou meter-me numa merda daquelas.
Disse a toda a gente que ia para a praia ver gajas e beber cerveja e depois ponho-me a arriscar o pelo só porque é a única coisa que me faz sentir vivo de vez em quando.
Quando me perguntam o que faço nos tempos livres digo que trabalho num bar, que sou artista da arte do transformismo. É mais fácil, assim quem pergunta enoja-se e não pergunta mais nada. Não percebo porque é que faz confusão ás pessoas um gajo gostar de subir montanhas, ou vestir roupa de gaja, ou qualquer outra porcaria? Porque é que faz confusão ás pessoas um gajo gostar (e dizer que gosta) do que quer que seja, implique risco ou não? Basta que seja diferente e lá vem o "tu é que és maluco", ou o "panasca de merda", ou o "qualquer dia ainda te aleijas a sério", ou qualquer outro comentário imbecil de quem não compreende nem quer compreender que alguém expresse a sua individualidade a fazer algo que lhe dá prazer, seja a subir uma montanha, seja a pintar um quadro, seja com um corte de cabelo ou a vestir roupas diferentes, a ouvir música, o que seja.
Acho que me custou mais a explicar, a toda a gente a quem não menti, o que ia fazer do que efectivamente a fazê-lo.
Desde que o avião nos deixou no glaciar percebi que me tinha metido numa coisa para a qual não estava minimamente preparado, mas também acho que nada do que alguma vez tivesse visto ou feito me iria preparar para aquela montanha.
Estou para aqui a descrever aquela merda como se tivesse dobrado o Cabo das Tormentas e afinal correu tudo bem e ninguém se aleijou. Bem... quase, mas já conto.
Eu não estava preparado para ver uma fenda no gelo com espaço para engolir um autocarro e da qual não se vê o fundo, e foi isto o primeiro dia de caminhada. Não estava preparado para aclimatar mal á altitude e ser incapaz de dar dois passos sem parar para respirar. Não estava preparado para estar a quatro mil e tal metros de altitude e ter perto de quarenta graus positivos de temperatura dentro da tenda de dia e vinte e cinco graus negativos durante a noite. Não estava preparado para puxar uma porcaria de um trenó que tinha vida própria e opinião própria sobre o caminho a seguir.
Á distancia de alguns dias de reflexão acho que o que me fez desistir de tentar subir ao cume daquela montanha aos quatro mil e trezentos metros de altitude (quando ainda faltavam mais mil e novecentos metros verticais para subir) foi o facto de me ter assustado com a montanha em si (agorafobia?) e ter andado o tempo todo a tentar não me matar ali.
Meti na cabeça que para sobreviver nada podia correr mal, não podia faltar comida, o tempo tinha de estar calmo, o equipamento tinha de funcionar na perfeição. E isso não foi bem assim, a comida que escolhemos era um bocado intragável (esparguete com atum nunca mais na puta da vida, aliás, nem esparguete nem atum com merda nenhuma), o trenó era incontrolável (virava-se ao menor ressalto na neve, saía constantemente do trilho, estava mal encordado á mochila e ficava muito mais difícil de arrastar... parecia um burro teimoso), o combustível entupia constantemente os fogões, tínhamos isqueiros a menos, o telefone satélite que um dos gajos do grupo levou (um tijolo - literalmente - grande e inútil) nunca funcionou, nem nas cidades, as botas estavam sempre húmidas com suor e eram demasiado frias, levei toalhetes a menos e a higiene ficou um pouco limitada… é escolher.
Chegou a um momento em que não aguentei e aquilo tudo foi demais para mim, não estava preparado, a comida não entrava, tinha sempre demasiado frio ou demasiado calor, estava farto de desmontar o fogão para limpar, tinha o nariz em ferida de tanto limpar o ranho que pingava constantemente, já não conseguia suportar o cheiro a sovaco, peido, pés e colhão que saía de mim, a dieta de merda começou a provocar-me diarreia, não conseguia beber o suficiente para repor líquidos, não conseguia secar as botas, os óculos magoavam-me o nariz, queria uma coca-cola, comida que não me provocasse vómitos... E no campo 4 a 4.300 metros de altitude tomei a decisão de não subir mais e esperar ali que o resto do grupo tentasse ter uma aberta no tempo para tentar ir ao cume. Esqueci-me que ali vigora a lei do “desenrasca” do “aguenta…não chora!” e que por uma merda de nada correr mal o mundo não vai acabar e não vamos morrer todos, agora vejo que desisti cedo demais e que foi uma atitude de puto mimado. E eu que julgava que era melhor que isso.
Eles ainda tentaram, tínhamos um boletim meteorológico que dava uns dias com vento razoável na parte mais alta da montanha antes de entrar uma tempestade grande, quando soubemos disso eles fizeram rapidamente um depósito de comida perto do local do campo 5 (a zona de acampamento mais alta da montanha, a última antes do cume) e subiram dois dias depois para tentar a sorte. Tiveram azar, o vento nunca amainou o suficiente e o mau tempo entrou um pouco antes do previsto e tiveram de descer para o campo 4 no meio da tempestade. Depois foi arrumar a tralha e o plano era descer de uma tirada até ao acampamento base, durante o dia até ao campo 1, descansar aí um bocado e atravessar o glaciar durante a "noite" (naquela latitude e na altura do ano que foi, nunca fica realmente de noite) para termos as pontes de neve mais estáveis por cima das fendas no gelo e isso tinha sido tudo muito bonito não fosse cerca das 10 da noite um dos gajos ter tido um pequeno "episódio" de pedra nos rins e ter desatado a cagar “de jacto”, a vomitar-se a cada passo que dava e a mijar sangue. Tivemos de contactar as equipas de resgate e o gajo lá foi evacuado de helicóptero para o hospital enquanto o enchiam de drogas (Vicodin, morfina..., cabrão cheio de sorte, quando lá voltar também vou arranjar uma merda qualquer para fingir umas dores, é que os gajos ali têm drogas de qualidade... e dão aquilo quase sem um gajo pedir…), entretanto deixou-nos todo o equipamento e o trenó dele para nós carregarmos até ao campo base (só 9km de glaciar...). No campo base estivemos umas horas á espera de avião e foi na base do desenrasca, porque estava mau tempo e ninguém queria aterrar ali (a pista estava a perder a camada de neve e começavam a aparecer fendas no gelo na zona de aterragem) mas finalmente lá nos vieram buscar.
E acabaram assim duas semanas de montanha. A barba levou uma hora a desfazer (em duas semanas aquilo cresce um bocado), o sarro acumulado levou um bom e longo banho quente a tirar (e no fim ao passar a toalha saía pele morta como se caísse depois de um "escaldão" de verão). O esforço de descer a montanha deixou-me com dores musculares durante dois dias (já estou habituado de outras asneiras que faço). Mas já estou novo e já pareço uma pessoa outra vez.
No fim (depois do banho) só pensava em voltar lá outra vez e a ideia já fermenta, daqui a um par de anos, quando juntar dinheiro de novo... com melhor equipamento, com a experiência acumulada para evitar os erros de comida e combustível e resolver as falhas do equipamento... E fiquei a pensar que, se quisesse tinha subido um bocado mais (ou tudo) daquela merda, se tivesse tido um pouco mais de força de vontade para aguentar tudo o que não correu como prevíamos e tudo o que a montanha me fez sofrer (frio, calor, falta de ar, vento, neve, gelo, desconforto...), se... Como citava o Henry Miller - "Balls" said the Queen "if I had them I'd be King".
Fiquei a conhecer mais alguns dos meus limites e fiquei bastante desiludido por ter desistido com a fasquia tão baixa. Não é bem que tenha desistido, é mais que nem cheguei bem a tentar e mais enojado comigo me fiquei a sentir. Mas sei que sou capaz de lá voltar e desta vez com a vantagem da experiência e com a vantagem de saber o que me espera e de saber que nada disso é insuperável e que sou capaz, que aquilo não é nenhum Cabo das Tormentas. E a montanha é bonita, e vai valer a pena voltar.
Estou para aqui a falar disto como se levasse esta merda a sério. E talvez leve, há quem leve o trabalho, ou a família, ou as gajas, ou o que quer que seja a sério, porque é que eu não haveria de levar a montanha a sério?
Agora há merdas que não mudam, e o caralho do monte de lata e plásticos manhosos já cá está no "dótôr" Tó Manel outra vez, saudades? Subir uma merda de um passeio mais alto e lá vai a calibragem da roda, o alinhamento da direcção e mais meia dúzia de merdas do género. Já vi que qualquer mosquito de merda me fode o carro todo, mais valia ter comprado um Chaimite usado ao exército (parece que andam a rifar aquela merda). Podia dar problemas mas não era com um passeiozinho de merda que a direcção desalinhava...
Ao menos vejo que o Sr. Manel já cá anda de novo a controlar esta escumalha, a ver se isto volta a ser uma oficina que se preze. Nunca cheguei a perceber é porque é que o homem foi malhar com os ossos no hospital? Diziam que ele andava com a gaita em chaga, que tinha apanhado qualquer coisa com uma das badalhocas da casa de putas da Madame Filipa. Mas eu não acredito, que o Sr. Manel não é desses, então com a patroa que tem em casa… ui, aquilo é mulher de pelo na venta, não ia deixar o homem andar aí nos copos e nas putas assim desgarrado. Nah! Cá para mim foi uma dessas viroses que um gajo apanha hoje em dia sem saber porquê? O importante é que ele está de volta para por ordem nesta escumalha, isso é que é importante.

Ibeson Gudiear

O pastô anda insistindo com aquele negócio à muito tempo...E eu não sei como pegá o Tó no momento certo para falá sobre o assunto. Tenho visto ele tão chateado com o trabalho e o negócio de podê ir tocá aos Estatis não tê acontecido o homi anda sobricarrêgádo. A filha do Máneu tambêm podia ajudá um pouco e não vi cá só manda opinião sobre à cô duis cortinado do escritório.
Mas tenho que falá hoje com ele, aproveitá que está debaixo do carro do Arcino, mais uma veis e puxá pelo assunto.
Mas onde é que o Arcino andou com o carro? Já tirei umas hastes de veado motô, pelo de búfalo dos banco da frenti e...Mas o que é isto uma barbatana de ôrca dentro da bageira? Raio do hôme tem que aprender que o carro não pôde ir a todo o lado.Mas vortando à vaca fria ái vai disto, Oh Tó já tenho uma proposta pá ocê, já que seu Maneu não tá cá e ocê que manda na oficina, o que ocê me diz de podermos fazê as sessões do curto aqui à noite? O sitio já tá supimpa de bom e acho que com mais uma adaptação ou outra do tipo pintá uma pomba branca com uns neões na parede do fundo, nada mais. O que te parece, pensa no negócio, sim?

Sr. Manel

O pior de tudo é o tempo que não passa.
Parece que cheguei aqui anteontem, mais velho menos velho. Não há pachorra para os gemidos. Mania de não usar câmara de ar, é no que dá. Tenho o sardão cheio de pus; sinal de vida, nem pó. Nem com o decote da enfermeira, tão perto, tão debaixo do chuveiro. Também, não admira; desde que o médico monhé me reconheceu, já sabia que a coisa ia ser feia, mas nunca pensei que pudesse ser ainda mais feia que o Corolla verde-alface que lhe vendi, como novo, depois de ter tirado dos estofos os últimos bocadinhos de cartilagem do antigo - e único - proprietário. Queria o quê? Carrinho de garagem por novecentos contos? Bem que se vingou, o filho da mãe. "O Sr. Manel é alérgico à penicilina, tenha paciência" e vai de proibir que me dêem antibióticos. Todos os dias, por volta das seis e meia, chega a enfermeira Fernanda com o martelo, aumenta o volume da rádio e, invariavelmente, "Vamos a pôr essa porcaria cá para fora, senhor Manel?" Não adianta resistir; a gaja é maior que eu - fez recruta em Tancos, onde é que este mundo vai parar - e com isto e aquilo nas mãos depressa me esgota a argumentação. "Já sabe o que acontece se não colabora! Escusa de fazer birra." Todos os dias um tormento, nem ao domingo tenho descanso. Ainda pedi à patroa que falasse com o Fernandes da farmácia, mas ela, nada. Repeti, e ela fez de conta que não ouviu. Sem parar de me fitar com aquele ar de búfalo tailandês, pegou na colher do iogurte natural "Come, Manel, come que vais ver que ficas bom num instante. Só comes porcarias e depois é no que dá". Bem me parecia que não tinha engolido a tanga da retrete da oficina. Mania das sextas à tarde. Fica-me de lição, ou por outra, não me fica coisíssima nenhuma. Neste estado bem pode a Madame trazer-me o prato mais recente da casa que há-de dar igual às paranóias mensais da patroa. Isto não é vida para ninguém. Já ando a fitar as mamas da enfermeira com menos recato que o costume. E não adianta de nada. Qualquer dia, de manhã, "O Sr. Manel passou muito mal a noite, tivemos que tomar uma resolução. Está dentro dum frasco, a sua esposa já o levou, esteja descansado." Não, não. Se se levar alguma coisa daqui, há-de ser um saco comigo dentro. Não me partem aos bocados, ou se partirem de certeza que não vão começar por aí. Mais dia, menos dia, resolvo o assunto pelas minhas mãos, de uma vez por todas. Não deve ser problema: preservativo foi coisa que nunca usei e de descendência mal parada, se a houve, tratou a Madame, que me garante conhecer um orfanato de confiança, lá para as bandas de Badajoz. Ainda para mais sem limbo nem nada, estou certinho lá em cima. A não ser que se tenham esquecido do cheque em branco depositado na ranhura do Santuário de Fátima. Está bem que a conta não tinha provisão para lá dos cinco mérreis mas sempre ouvi do senhor prior que a intenção é que conta. E há lá melhor intenção que dar tudo o que se tem?
Nem devia falar de intenções, que só me lembra o estado em que estou. E no qual não quero ficar, nem por nada deste mundo. Se não puder fornicar tudo o que me aparece à frente, nem me interessa andar aqui mais. Basta! Não vou ficar à espera do cutelo para depois nem tomates ter para fazer o que tenho a fazer. Mais a mais, a oficina está entregue. O puto dá conta daquilo. Se não der, já por lá anda o Alcino. Foi o único acidente de percurso que me quebrou a frieza habitual. Na volta, nem ele percebe porque anda tão ligado à oficina. Aliás, nunca percebi se ele percebe alguma coisa de todo. Desde que fez 12 anos, descobri que escuso de lhe fazer a mesma pergunta duas vezes: a resposta é sempre aleatória, o que torna a compreensão daquela um facto desprezível. Vantagens de ser funcionário público; dizem que o alheamento intelectual é um direito adquirido. Deve ser a isto que o Professor Cavaco chama welfare state. Aliás, quando ouvi o seu célebre discurso sobre a produtividade lembrei-me de tornar o Ibeson meu filho adoptivo. Pode parecer que não tem nada que ver, mas o truque é que ele ainda pensa que está ilegal. E vai continuar a pensar, não haja dúvida: os tipos lá da Igreja dele não são estúpidos.
A noite será boa conselheira e vai esconder o que me espera lá em baixo. A vista até nem é má aqui de cima, pode ser que me distraia com as luzinhas. Não vou perder tempo a interrogar-me se a morte dói - deixo esse legado ao Alcino - ou se fico esborrachado o suficiente para deixar de ter relações sociais para lá de uma impressão - videntes, psiquiatras, bruxas, o sr. prior, o Ibeson, ninguém sabe explicar ao certo que raio se passou para a Marilene ficar naquele estado; aliás, terá alguma vez tido outro? Nem vou tocar em nenhuma das merdas que o Tó Manel me tentava impingir, senão ainda me detenho pela visão do Presidente do Conselho, flutuando sobre a chaminé da incineradora, a recomendar o uso de um agasalho adequado. Não, não, não! Renuncio aqui e agora a um futuro que não seja uma celebração do passado que tanto prezo.
Lá vem a puta da enfermeira...
Não volto a isto nem mais um dia.

Telefonia

Things change yet so much stays the same
Life's just a dream we have of reality
Love's strength enhances what we have
and then strips us of our sanity...

It's strange, yet somehow obvious
That what we want the most we must let go
Your head is freer still than mine
And not so cluttered with morality...

Tó Manel

Já dizem os Lamb (das poucas cenas sem guitarras que um gajo ouve) "things change yet so much stays the same". As coisas encaixam e ficas na mesma. E basta uma pequena coisa, uma merdice de nada e podias dar a volta à tua vida. Mas volta sempre tudo ao mesmo, porque não controlas o que está à tua volta. E já tinha escrito (o outro)... desculpem... pensado (eu, Tó Manel) nisto antes. Há tantos milhões de pequenas merdas que influenciam quem tu és, onde estás neste preciso momento, o que fizeste e o que vais fazer, que sendo livre és constantemente prisioneiro de onde estás. Mais que isso, és prisioneiro do teu corpo, deste planeta, do que for. Nunca podes ser tão livre como quando pensas nas cenas, mas mesmo aí tens todo um esquema dentro do qual tens que pensar. Mas não era sobre isto que queria pensar hoje. Estava decidido a cagar para isto tudo, estava mesmo, uma pequena cena, uma resposta que não veio a tempo e pronto. Tudo ficou na mesma... acho eu. Por isto é que acho que precisamos de um manager, alguém que controle as cenas por nós, os concertos, as tournées e o caralho. Porque infelizmente temos cenas para fazer, e nestas alturas complicadas em que há oportunidades, mas um gajo está cheio de trabalho, é que o Jó-Jó tinha que estar fora e não ver os nossos mails a tempo, também não quis ser uma besta e bater-me ao piso, não queria que o gajo se sentisse obrigado a nada, só dar uma pista. Mas um gajo está decidido a dar o salto e nada, foda-se. Será que havia mesmo oportunidade de fazer os concertos no States? Era uma cena do caralho. Agora estou outra vez enterrado até aos tomates em trabalho na oficina, não sei se dá, se vamos ter outra oportunidade. Foda-se, tinha sido desta, e não sei se vamos conseguir ter as cenas tão alinhadas outra vez. Pode ser que tenha outra oportunidade, devo ver o gajo no Super Bock, vamos lá ver.
Isto põe-me a pensar, é fodido um gajo não acreditar em dEUS e nessas merdas. Porque torna a tua vida muito mais difícil, não acreditares que viemos todos do mesmo sítio, e que vamos todos para o mesmo sítio. Quer dizer, até viemos e vamos para o mesmo - nada. Nestas altura difíceis é que temos a tendência para precisar de uma coisa fácil a que nos agarrarmos, sofrer porque fizemos merda, ou passar por merdas para outros fins, escrever direito por linhas tortas e o raio que o parta. O caralho, estás sozinho e acabou. Por uma puta de uma cena num culhão estamos aqui, neste planeta, a pensar, a viver neste mundo, a fazer merdas que quando morreres acabaram. E daqui a uns milhões de anos, quando esta merda estoirar toda, nunca ninguém nem nada em sítio nenhum do universo vai saber que alguma vez existimos, o que é que andámos a fazer, se acabaste o filho da puta do carro daquele cabrão no dia que ele queria ou não. Isso obriga-te a pôr as cenas em perspectiva. Então porque é que não te estás a cagar e não és um filho da puta pra toda a gente? Bem, não é preciso ser bué inteligente pra perceber que se não andares sempre a foder toda a gente, é menos provável que te andem sempre a foder a ti. Agora, descobrir porque é que a puta da tua cabeça te impede de fazer as merdas que te apetece mesmo fazer...

Telefonia

Do you realize? That you have the most beautiful face...
Do you realize? We're floating in space
Do you realize? That happiness makes you cry
Do you realize? That everyone you know one day will die...

...and instead of saying all of your goodbies
let them know you realize that life goes fast,
it's hard to make the good things last.
Realize the sun doesn't go down,
it's just an illusion caused by the world spinning round.

Do you realize?

Marilene: a menina do calendário

Ai, meu querido Santo António, que sonho que tive! Parece que estive a dormir mais de um mês e só comboios e mais comboios, de um lado para o outro... Deve ser um prenúncio, quase de certeza! Hummm... Pelo andar da carruagem... Ah! Mas que dia bonito, o de hoje! Vê lá o que me preparas, meu Santo Antoninho! A minha hora de sair desta maldita parede já passou há muito! E já que o Tózinho não me liga, vê lá o que é que me arranjas!!! Eu gosto muito do Ibeson, mas não sou rapariga de ouvir poesia! Se não, não estava aqui e estava pendurada na biblioteca de Almada! Já, o Alfredo... É mais o meu estilo. Corpo musculado, bonito, com todas aquelas pinturas... isso é que é arte! Ai ai...

Telefonia

Chemicals,
Don't strangle my pen,
Chemicals,
Don't make me sick again,
I'm always so dubious of your intent,
Like I can't afford to replace,
What you've spent,
Come on, chemicals!
Come on, chemicals!
Come on, chemicals! (...)

Telefonia

We are the fossils, the relics of our time.
We mutilate the meanings so they're easy to deny...

Tó Manel

Isto de andar a correr há umas semanas anda-me a foder. Venham-me dizer que não ando o mesmo, andar? Quem me dera andar, caralho. Andar daqui pra fora. No sentido lato da coisa.
Estava noutro dia a falar com os cotas sobre a vida de merda que as pessoas levam hoje em dia. Cada vez temos mais máquinas para fazer o nosso trabalho, temos computadores, temos as merdas organizadas e… cada vez estamos mais fodidos. Eu que sempre fui contra estas merdas, que sempre achei que nos cabe a nós traçar limites… A falta do Manel, e não haver rigorosamente mais ninguém que possa fazer o meu trabalho, ou que oriente o brazuca, que não faz mais nada senão andar praí a sonhar acordado, anda-me a foder completamente. Não tenho horas livres, não tenho fins-de-semana tranquilos, os clientes a telefonar a massacrar quando um gajo tenta descansar um bocado. Não está nada fácil, e é fodido lidar com esta pressão. Porque há sempre mais gente a controlar do que gente a fazer as coisas. E infelizmente, ou um gajo faz tudo, ou já sabe que vai perder ainda mais tempo a desfazer a merda dos outros. EU NÃO AGUENTO! Podia cagar, mas e depois, um gajo vai viver de quê? E se um gajo não arranja mais nada e tem que voltar à estaca zero? Um gajo que tenta sempre levar as merdas dentro do razoável, e tem consciência destas merdas. Quando é assim e as coisas fogem do controlo é um sinal que estamos mesmo mal. E queres fugir mas a puta da sociedade tem tudo controlado, para fugires a esta merda não podes fugir desta merda antes. E assim continuas.
Voltando à cena da tecnologia, hoje temos merdas pra fazer tudo, mas andamos cada vez mais a correr porque as pessoas são estúpidas. Principalmente aqueles que, como não fazem realmente nada de útil, fodem a cabeça a quem tenta fazer. Cada vez menos esta escumalha se convence que as merdas demoram tempo, que para as coisas ficarem bem feitas precisas de pessoas competentes. Esta merda leva ainda mais tempo, não sai barato. Mas não, querem tudo. Querem as merdas baratas, querem as merdas depressa, querem as merdas já. E como a única cena com que se preocupam é com isso, esquecem que quem anda mesmo a foder o couro para fazer as cenas é de carne e osso, tem limites, não aguenta esta merda. As merdas até se vão fazendo, cansam, não percebem que o massacre constante não ajuda em rigorosamente nada. Não vão ficar com as merdas mais bem feitas, nem mais depressa, só vão foder ainda mais a cabeça a um gajo.
E enquanto esta pressão te vai fodendo a cabeça, por muito imune à cena que um gajo seja, há um mundo cá fora, à espera que continues da mesma maneira, à espera das mesmas merdas, da mesma paciência. Que faças o caralho que o foda, quando já não aguentas nem mais um segundo de obrigações. Quando queres paz, fazer as tuas merdas… não fazer nada, aliás, chegar a casa, esticar-te no sofá e vegetar, babares-te até mais um dia do mesmo. Mas não podes, tens a banda a dizer que temos que ensaiar, que precisamos de músicas novas prá maquete, tens os cotas a querer que os ajudes a preencher a merda do IRS, que vás ver da prenda pró casamento da tia não sei quê, tens o filho da puta do mundo todo a cair-te em cima. Não consegues dormir, sentes a cabeça como se tivesse um torno a apertar dos lados, não consegues relaxar num bocadinho que te sentas, sentes o corpo com dores, mas dormente, estás um zombie. Ires a grupos de terapia é do caralho se tiveres tempo para isso, e de qualquer maneira não ia ser no filho da puta do Brad Pitt que te ias transformar se te passasses. “I’m pretty fucking far from OK, man”. E o mundo não tenta entender isso. Continua à espera de um gajo normal e razoável. Um gajo que não se passe à mínima merda. E o filho da puta do braço continua a doer e sei que não está grande coisa. Quase desejo ter que ser operado a esta merda, ia ter algum descanso da oficina. Nem tempo para escrever... aliás, pensar tenho tido. E preciso tanto de pensar para aliviar esta merda toda, ando em overdrive e já não me apercebo de nada.
Enquanto a dor não vem não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Vejo uma luz ao fundo do túnel, e pode ser a oportunidade de mudar esta merda toda. Nunca o fiz, quando claramente o podia ter feito. Falo nisso, penso nisso, mas chega à hora e nunca sou capaz de pôr tudo em prática. Será que as pessoas pensam que sou mais um hipócrita? Se há merda que tento é dizer sempre a verdade, e tenho sempre essa merda na consciência quando digo as coisas. Mas tomates… o grande problema é ter coragem para dizer a verdade, para fazer uma revolução, para andar com as merdas para outro caminho, quando vês que este não leva a lado nenhum. Pode ser o empurrão que um gajo estava à espera. A sociedade ajudar-te, com esta pressão insuportável, a revolucionar a cena. Vou lançar os dados prá cena, é desta, parece-me. Espero que a falta de coragem não tenha hipotecado todas as minhas ambições. Que não tenha posto o pessoal da banda de pé atrás, que não tenha dado a impressão errada. Porque se andas a rondar a cena mas dás uma no cravo e outra na ferradura as pessoas fartam-se, pensam que és mais um, mais um hipócrita, mais um filho da puta. Mas não és, nunca tiveste foi coragem, de dizer logo que queres mesmo é andar com a banda prá frente e cagar prá oficina. Porque estas merdas têm que ser bem feitas. Não podia cagar para isto e deixar a oficina afundar-se. Entretanto a banda é só um grupo de amigos que se junta pra tocar e mais nada. Não é isso que eu quero, não estou bem aqui, mas nunca tive colhões para mudar isto. Podia tentar fazer as duas cenas a sério, mas isso não é a minha cena. Porque ia acabar por andar a enganar uns e outros. E lá se vai o discurso contra a hipocrisia, nesse caso não ia ser mais um, ia ser um dos piores. Nunca fiz a cena assim, não vou começar agora, nunca me ia perdoar, nunca ia viver bem com a consciência. Porque um gajo diz que se está a cagar, mas nunca está realmente. Agora, estou no limite, ando no red line há demasiado tempo, e o mundo anda em cima dos meus ombros, e a minha sanidade está seriamente posta em causa. E quero tanto que seja desta, espero que o pessoal não se tenha fartado das minhas cenas e tenha percebido ao longo deste tempo todo o que é que eu quero realmente. Uma coisa é certa, a partir daqui nada será como dantes… acho eu.

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